sexta-feira, 23 de setembro de 2011
BOTECO SUJO: De onde vêm os heróis
BOTECO SUJO: De onde vêm os heróis: Tony morreu para salvar quatro pessoas (Foto Arquivo Pessoal) Como uma combinação entre um mar revolto, dores nas costas e quatro surfistas ...
sábado, 26 de março de 2011
O HOMEM QUE VENDIA BOM-DIA
Quase 30 anos vivendo no mesmo bairro. Nesse tempo todo nunca vi ele negar uma gentileza à um passante, conhecido seu ou não. Seu Zé tem a banca de jornais ali desde que eu me entendo por gente e está sempre disposto a jogar um sorriso ou um bom-dia mesmo a quem não é cliente. Algumas vezes tenho a impressão que o faz para assustar o sono que se nota em seu rosto em algumas tardes.
Não tenho dúvida, inclusive, de que muita gente vai ali para comprar um bom-dia e não um jornal ou revista. Afinal um bom-dia é garantia de felicidade ainda que momentânea, e aquece e alimenta a alma. Difícil dizer o mesmo dos jornais....
2011
sábado, 25 de setembro de 2010
BASTA!
Acordou naquele dia sentindo-se diferente. Não havia nenhum motivo aparente para aquele sentimento, mas o Domingo daquela vez lhe parecia incomum. No peito uma mistura de confiança e angústia lhe causava uma sensação nova que se espalhava pelo corpo.
O sentimento lhe acompanhou quando mais tarde, como de costume, os dois se encontraram na Avenida Paulista para caminhar um pouco sob o sol e ver o movimento. Já faziam isso há algum tempo, assim como muitos outros programas que consideravam seus rituais de fim-de-semana. Naquela manhã, no entanto, agoniado pelo sentimento esquisito que despertara com ele, resolveu durante a caminhada dar à mão ao seu companheiro.
Choque. Um susto momentâneo e uma dúvida sobre se havia sido a decisão correta. No entanto o carinho recíproco e acolhida da mão trêmula logo dissiparam o nervosismo. Afinal já estavam juntos há muito tempo, e aparentemente o desejo de afeto público sem sentimento de culpa ou medo era comum aos dois.
Foram o primeiro casal homossexual visto de mãos dadas caminhando na Avenida Paulista. Mas isso já faz muito tempo mesmo.....
“This is one small step for a man, one giant leap for mankind.” (Neil Armstrong)
São Paulo, 23 de Agosto de 2010
POETERO
Queria saber escrever poesia
Quem sabe um dia me ajudaria
A entender mais fácil tudo aquilo
Que depois de muito só entendo
Quando leio um bom poema
domingo, 30 de maio de 2010
UMA PUTA CANTORA
Shirley desde criança sonhara em ser cantora. Ainda pequena no subúrbio de Recife divertia a família cantando temas que ouvia na rádio. Também pudera, cantava como poucas. Sua avó costumava dizer que Deus lhe havia tocado o gogó e que um dia seria cantora de sucesso. Mas para tristeza da menina dizia ainda: “Tomara que vire cantora, porque feia como é, não vai ser nada na vida”.
E o fato é que era mesmo feia. Não vamos ser hipócritas e dizer que a feiúra é relativa, porque todos sabemos muito bem quando vemos uma pessoa muito feia. Pois é, Shirley era uma dessas.
Apesar da feiúra a menina cresceu alimentando seu sonho com histórias do que faria quando fosse cantora famosa. E alimentava o sonho com música. Como cantava bem!
Para alimentar o corpo, no entanto, Shirley teve que fazer como muitas do seu bairro. Vender-lo. Não foi sua primeira opção, é claro, mas ser prostituta, depois de uma breve história de fracassos era o único papel que lhe cabia socialmente.
E por um tempo levou sua vida assim, assistindo aos programas de música com aquelas lindas cantoras e na calada da noite saía para fazer os seus programas cotidianos. Vez ou outra cantava para algun cliente. E como cantava bem!
Viu a Madonna como material girl e um sem-fim de outras depois, que a cada videoclipe tiravam uma peça de roupa do vestuário. Não só já era normal gravar videoclipes sem roupa, como insinuar o sexo. E dá-lhe Moulin Rouge; Beyoncé, Britney Spears e Lady Gaga.
Shirley dava risada e dizia: “Essas aí estão cantando ou fingindo que são da noite?” Às vezes se perguntava porque essas cantoras não viraram prostitutas já que queriam parecer tão sexys e fazer strip em público.
Um dia até tentou gravar uma demo e enviou a um produtor. Mas o homem quando a viu a fez lembrar de sua avó dizendo: “Você canta muito bem, mas pra vender disco hoje em dia tem que ser mais bonita. Hoje só vende disco sem parecer semi-deusa a Maria Bethânia.”
Apesar da cruel sinceridade, Shirley não perdeu muito tempo com tristeza. Segue sua vida e hoje tem até anúncio nos classificados:
“Morena gostosa faço de tudo. Dotes musicais.”
Madrid, 30/05/2010
domingo, 4 de abril de 2010
A MORTE DO KARATE KID
Creio que em breve irá estreiar a refilmagem de Karate Kid, se é que já não está em cartaz em algum lugar. Tenho que admitir que a princípio me emocionei com a perspectiva de ver esse que eu considero um grande filme em uma nova versão, mas rapidamente mudei de idéia.
Talvez tenha que assistir antes para não tirar conclusões precipitadas, mas temo que tenham matado a Daniel Larusso e Miyagi de maneira cruel, afinal o que justifica uma refilmagem de Karate Kid, mas que é de Kung Fu?
Já pratiquei ambas artes marciais. Não sou mestre de nada, mas tampouco fiquei na fase de simples curioso principiante e arrisco que, se o primeiro era uma lástima com relação ao conteúdo marcial no sentido de demonstração das técnicas do Karate, era pelo menos fiel quanto aos valores por trás de uma arte marcial, e o real significado de sua prática.
O novo filme, além de descaradamente manter o nome original, creio que vá ser vazio de personalidade (não só por ser uma refilmagem, pois há refilmagens que têm muito caráter), e que mostrará alguma pirotecnia em cima do Kung Fu e só. Triste, porque seria ótimo ver um filme de conteúdo verdadeiro das artes marciais chinesas como vi em Herói, de Zhang Yimou. E por outro lado seria ainda melhor ver um bom filme de Karate, tema que morreu nos fiascos dos filmes de ação oitentistas.
O fato é que é mais fácil ver “Kung Fu Kid”. Fácil por diferentes motivos. Com a China em alta; com o cinema irreal dos efeitos especiais; com a ditadura do visual sobre os outros sentidos; e com a prisão de ventre mental de cineastas e espectadores, talvez a nova versão tivesse mesmo que ser alterada para ser digerível, senão seria taxada de “Drama”, “cult”, ou predestinada às sessões desérticas do CineSESC para “intelectuais”. Me surpreende inclusive que não seja em 3D.
Sou fascinado pelo pensamento chinês tradicional, fato que me levou a praticar Kung Fu por cerca de 10 anos ininterruptos. Mas tenho receio de que a China continuando seu crescimento exponencial e suas práticas autoritárias e cerceativas, passe também a exercer hegemonia em tudo que se entende por cultura oriental. Ou seja, que o velho binômio conceitual ocidente x oriente, veja somente a China nesse último.
Me parece que foi esse panorama que matou a Daniel-San e Miyagi. Há um espaço cada vez mais reduzido para oferecer o que é a cultura e o pensamento, por exemplo japoneses, ao espectador. A simbologia, ideologia e imagem chinesas são produtos de alta aceitação no mercado cultural, e seu governo não teme investir nisso.
Não quero dizer que o Japão devesse começar uma propaganda político-cultural forte como a China, mas sim que algumas coisas devem ser melhor analisadas e compreender-se os motivos pelos quais elas surgem e desaparecem. Afinal, o filme novo que vem por aí não é Karate Kid de fato; o Kung Fu que mostrarão aí, tampouco será Kung Fu de verdade e por último mas mais importante, Karate forte não desvanece por menos que apareça nos cinemas.
Jackie Chan que me perdoe....e Miyagi-Sama nos ilumine....
Barcelona, 01/04/2010
sábado, 3 de abril de 2010
FOCO NO TODO
Não que alguém esteja interessado, mas explico:
O nome deste blog está baseado em uma forma de meditação Yogi sobre a qual li certa vez e achei um tanto quanto interessante. Diz-se que eles têm uma prática meditativa de atirar facas uns aos outros, provavelmente como se fossem malabares (não sei bem ao certo). Seja como for exatamente o exercício, a mim me soa bastante forte.
A idéia seria um pouco diferente do “total desligamento” da maioria das práticas meditativas, em que o praticante concentrando-se basicamente em sua respiração busca “perder” o nexo com seu corpo. Perder no sentido abstrato e no plano do pensamento racional, pois é na verdade exatamente a conexão com o corpo livre de pensamentos que permite estados meditativos alterados de percepção. Na prática de atirar facas, o propósito é também o de buscar novos planos de consciência, mas mantendo-se em estado de alerta. É a arte de manter um determinado foco (na meditação e sua respiração, postura e métodos necessários), mas sem perder a perspectiva do todo (facas!) que se passa ao redor.
Metaforicamente interpretei como uma maneira de aprofundar-se em determinado tema ou assunto, sem se tornar limitado ao mesmo, e sim ampliando as perspectivas e correlações que tal tema pode gerar. Falar, escrever e refletir sobre um tema mas num fluxo de ida e volta de idéias, através de associações e analogias.
Dessa maneira sempre busquei e sigo buscando compreender o humano e sua variante Corpo.
Barcelona, 31/03/2010
INTO THE (inner)WILD
Muitos filmes marcaram minha vida em diferentes momentos e, certamente, por diferentes motivos. De acordo com a idade com que eu o tenha visto, ou com meu estado anímico, o filme deixou fortes significados. É assim com todo mundo, comigo não seria diferente.
Por esse motivo fica difícil dizer qual seria meu filme predileto. Mas há um em específico que tenho a mais absoluta certeza de que será um dos meus favoritos para sempre, que é Into the Wild.
Não sou adepto do tipo de filme e tampouco já havia lido o livro de Krakauer. Inclusive, devo admitir, tive uma certa recusa em ir assistir pelo bafafá que escutava sobre o filme, fato que me levou a vê-lo bem depois quando já estava no circuito reduzido de cinema, e como forma de matar o tempo nos meus saudosos Domingos na Paulista.
Não quero reescrever a sinopse do filme, mas o fato é que quando saí do Cine Bombril parecia que caminhava em outra atmosfera. Inclusive fiz um caminho mais longo para voltar para casa pois precisava dar algumas passadas a mais, como se para dissolver o turbilhão de imagens e sentimentos que tinha na cabeça.
Primeiramente o filme teve um “mérito” que foi o de me fazer chorar frente à tela depois de muito tempo (leve-se em consideração que estava sozinho e no escuro). E nesse exato momento que escrevo me dou conta que chorei em outros depois dele, como se ele tivesse restabelecido algum tipo de fluxo.
Não creio que tenha nenhum trauma filial como o protagonista, ou qualquer outro que justifique uma identificação tão forte, mas inegável é que o filme toca no âmago da questão: “Putaquiupariu...quero sumir”.
Somando-se a isso que Alex Supertramp, ainda que romantizado por Sean Penn como diretor ou por Hollywood, tinha uma forte inquietação política, filosófica, ética e espiritual. Me identifico muito. A ponto de me motivar a haver saído pela América do Sul, e de agora ver o fato de viajar sozinho sem grandes problemas, entendendo que ainda que estejamos sozinhos estamos com todo mundo.....e vice-versa.
Talvez pela forte atuação de Emile Hirsch, me marcou muito a necessidade do personagem se entregar corporalmente. Ele tinha de estar nos lugares, se expor ao contato com as pessoas e com o mundo, como se tivesse uma energia vibratória saindo do Tantien, jorrando pelos olhos, boca e poros.
Apesar de me fascinar com esse sentimento tenho certeza, e o próprio filme mostra, que esse não é um estado de vida de todo saudável. De alguma maneira há que se buscar o equilíbrio, a Peace of Mind, do BB King (ainda que se esse não a encontrou, não sei quem o fará), ou alguma forma de ponderar a inquietude com a satisfação. Já dizia Renato Russo: “Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade”. Acho que vai meio por aí.
Enfim....esta resenha era pra ter sido escrita faz tempo....ou não.
Barcelona, 31/03/2010
domingo, 28 de fevereiro de 2010
VENTOS DO LESTE
Tenho ouvido vozes muito fortes. Mas são vozes que não vêm de dentro, e sim de fora de meu corpo. Inclusive sei precisar de onde. Do leste.
De alguma maneira e por alguma razão que ainda não consegui identificar, a cultura japonesa me parece estar à flor-da-pele (ainda que eu siga mais moreno do que amarelo).
A música chinesa já não me acalma tanto o espírito, mas sim o som do shakuhachi. Os tambores do taiko me fazem o corpo pulsar. Sinto saudades de um lugar que nunca conheci.
Talvez seja saudades do meu pai. Talvez meus avós estejam por aqui.
De alguma maneira e por alguma razão que ainda não consegui identificar, a cultura japonesa me parece estar à flor-da-pele (ainda que eu siga mais moreno do que amarelo).
A música chinesa já não me acalma tanto o espírito, mas sim o som do shakuhachi. Os tambores do taiko me fazem o corpo pulsar. Sinto saudades de um lugar que nunca conheci.
Talvez seja saudades do meu pai. Talvez meus avós estejam por aqui.
Madrid, 27/02/10
LUTA COMIGO?
Já li muitos livros, vi filmes, pesquisei e conversei com pessoas sobre o que é de fato praticar uma arte marcial, e está aí uma coisa que para mim segue sendo um dos grandes mistérios da humanidade. Talvez não as artes marciais em si, mas o que levam consigo. Sigo com dúvidas eternas no meu peito (talvez mais na cabeça que no peito).
Como explicar a alguém de maneira exata o que se sente ao praticar uma arte marcial por muitos anos?
Como algo que envolve tanto sofrimento corporal pode ser tão prazeroso?
Como explicar essa coisa mágica e quase sobrenatural da relação de um mestre e seu aluno?
Como uma arte em sua essência voltada para a guerra pode contraditoriamente nos iluminar no caminho da paz?
Que coceira é essa debaixo da pele, que só alivia quando praticamos nossa arte marcial?
Como explicar a alguém de maneira exata o que se sente ao praticar uma arte marcial por muitos anos?
Como algo que envolve tanto sofrimento corporal pode ser tão prazeroso?
Como explicar essa coisa mágica e quase sobrenatural da relação de um mestre e seu aluno?
Como uma arte em sua essência voltada para a guerra pode contraditoriamente nos iluminar no caminho da paz?
Que coceira é essa debaixo da pele, que só alivia quando praticamos nossa arte marcial?
Madrid, 19/02/10
CAIXA-PRETA
Era uma vez um homem sem sistema límbico. Simples assim.
E era também um homem triste, porque triste é quem não o tem.
Meu sistema límbico é meu teletransportador temporal. Basta o estímulo pequeno de um cheiro específico, uma imagem familiar, uma ação comum e ele me leva a lugares, coisas e principalmente pessoas de meu passado.
Se na volta à minha terra meu avião sofrer uma tragédia, é ali que devem buscar a caixa-preta. Ao menos a minha.
E era também um homem triste, porque triste é quem não o tem.
Meu sistema límbico é meu teletransportador temporal. Basta o estímulo pequeno de um cheiro específico, uma imagem familiar, uma ação comum e ele me leva a lugares, coisas e principalmente pessoas de meu passado.
Se na volta à minha terra meu avião sofrer uma tragédia, é ali que devem buscar a caixa-preta. Ao menos a minha.
Madrid, 19/02/10
A MENTIRA DO CALENDÁRIO
Bailando com o tempo-espaço. Trinta dias são muita coisa no meu cotidiano, mas seguem sendo só um quadradinho lá no calendário.
Madrid, 16/12/09
domingo, 20 de dezembro de 2009
SOBRE LOBISOMENS, VAMPIROS E O HUMANO
Sempre gostei de lobisomens. Desde criança a imagem e lenda desse ser meio-homem e meio-lobo me atraem. Não que os vampiros não sejam criaturas que tiveram presença garantida ma minha infância e na minha juventude, mas por eles nunca nutri tanta empatia e curiosidade.
Sei que não sou só eu que ponho frente a frente esses seres em comparação. Desde sempre em filmes e nas rodas de RPG costuma-se contrapor lobisomens e vampiros. Eu nunca fui parte de um grupo de RPG, mas seguramente o cinema ajudou a formar esse imaginário de monstros e os diferentes conceitos que eles representam para mim, por mais bizarro que soe. Explico.
Lobisomen é bicho-do-mato, pé-no-chão e natureza instintiva. Vampiro me remete à roupa européia, capa, pompa de mordomo. Lobisomen exala testosterona, tem pelo no peito, é direto e reto, é o Jack Nicholson, mas tem alma brasileira de “causo” de cidade de interior. Vampiro exala perfume francês, é sensível ao sol, é cheio de firula (ainda que louco para morder logo o pescoço da mocinha), é o Tom Cruise e tem pinta de caricatura inglesa.
Vampiro é visual, egocêntrico e reflete a dinâmica do consumo de imagem. Tem que fazer cena e ter entrada triunfante, e com a outra cobrindo metade do rosto. Lobisomen é todos os sentidos à flor-da-pele, não tem cena de entrada, baba e rosna, uiva pra lua arrepiando qualquer um e sente o cheiro da caça.
O vampiro é o homem-comum, o Zé-pequeno do Reich, aquele que entra em crise frente ao espelho (ainda que não tenha reflexo) e fica remoendo pensamentos sobre sua condição semi-animalesca. Está envolto numa couraça falsa. O lobisomen não perde tempo com paradigmas. Quiçá os conhece, pois apenas obedece seus instintos em harmonia com a Natureza.
Vampiro é sorrateiro e medroso. Ataca a donzela sozinha debaixo da ponte e foge pra não ser descoberto. Lobisomen vai à caça da presa e se você cruzar o seu caminho te arrebenta também, só pelo fato de você estar ali.
Vampiro é meio-morcego. Um rato feio com asa que quando está bravo, guincha. Lobisomen é meio-lobo, um dos maiores mistérios da Natureza.
Vampiro transforma aos outros em vampiro e muitas vezes só age em bando. Lobisomen também contagia aos que morde, mas se você virar lobisomen é melhor que não seja no território dele porque a briga é feia.
Ambos seduzem as mulheres. Mas.....as mulheres que se sentem atraídas pelos vampiros são as frágeis que se perdem no jogo de esquivas dos mesmos, com seu ar insólito de indefinição sexual. Já as que se senem atraídas pelos lobisomens sabem o que querem, quando querem, como querem e acima de tudo sabem que vão ter.
Vampiro é meio melindroso.....Lobisomen é da linhagem dos Rústicos.
Madrid, 20 de Dezembro de 2009.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
LIBERATE YOURSELF FROM CLASSICAL KARATE
Em Setembro de 1971, a revista norte-americana Black Belt, publicou o artigo LIBERATE YOUSELF FROM CLASSICAL KARATE. Neste artigo Bruce Lee expõe suas teorias com relação aos sistemas clássicos de artes marciais. Pode-se dizer que ele é a pedra fundamental do Jeet-Kune-Do. Veja agora o artigo na íntegra:
"Sou o primeiro a admitir que qualquer tentativa no sentido de cristalizar o Jeet-Kune-Do em um artigo escrito não é tarefa fácil. Talvez para evitar fazer de um processo uma coisa. Pessoalmente, até agora, não escrevi nenhum artigo sobre JKD. Na verdade, é difícil explicar o que é JKD, embora possa ser mais fácil explicar o que não é.
Deixe-me começar por uma estória de ZEN. Ela poder ser familiar para alguns, mas eu a repito devido a sua propriedade. Considerem esta estória como um modo de tornarem flexíveis seus sentidos, sua atitude e sua mente, a fim de torná-los maleáveis e receptivos. Precisarão disso para entender este artigo, do contrário é melhor nem ler o resto.
Uma vez um homem culto chegou junto a um mestre ZEN para perguntar sobre o assunto. À medida que o mestre ZEN explicava, o homem culto freqüentemente o interrompia com observações como, "Oh, sim, também temos disso..." e similares. Finalmente o mestre Zen parou de falar e começou a servir chá ao homem culto. Encheu a xícara e continuou enchendo, ainda que o chá transbordasse. "Chega!", interrompeu mais uma vez o homem culto. "A xícara já está cheia!
"Sei disso", respondeu o mestre Zen. "Se não esvaziar primeiro sua xícara, como poderá provar meu chá?"
Espero quem meus companheiros nas artes marciais leiam os parágrafos que se seguem com a mente aberta, deixando para trás toda a carga de opiniões e conclusões preconceituosas. Isso, tem por si só, um poder libertador. Afinal a utilidade da xícara consiste no fato de estar vazia.
Sobre a Observação sem Escolha
Façam com que este artigo se relacione consigo mesmo, pois, embora seja sobre JKD, ele se refere, primeiramente ao desabrochar de um artista marcial - não a um artista marcial "chinês", um artista marcial "japonês", etc. Um artista marcial e antes de tudo um ser humano. Uma vez que as nacionalidades nada têm que ver com a humanidade de cada um, elas nada têm a ver com as artes marciais. Abandone seu casulo protetor de isolamento e se relacione diretamente com o que está sendo dito . Retornem aos seus sentidos fazendo cessar as supertições intelectuais. Lembre-se de que a vida é um processo constante de relacionamento. Lembre-se, também não busco sua aprovação, nem influenciá-lo em seu modo de pensar.
Ficarei mais do que satisfeito, se, em conseqüência deste artigo, você começar a investigar tudo por si mesmo e parar de aceitar, sem críticas, fórmulas prescritas que ditam que "isto é isto" e que "aquilo é aquilo".
Suponhamos que várias pessoas, treinadas em diferentes estilos de artes combativas, presenciem uma briga de rua. Estou certo de que ouviremos diferentes versões de cada um destes estilistas. Isto é bastante compreensível, pois não se pode ver uma luta (ou qualquer outra coisa) "como é", enquanto se estiver com as vistas tampadas por um ponto de vista tendencioso, ou seja, o estilo, e visualizando a luta pelas lentes de seu condicionamento particular. A luta, "como ela é" é simples e total. Não está limitada a sua perspectiva ou condicionamento como artista marcial chinês, artista marcial coreano, ou qualquer que seja. A verdadeira observação começa quando se deixam padrões estabelecidos e a verdadeira liberdade de expressão ocorre quando se está além dos sistemas.
Antes de examinarmos Jeet Kune Do, consideremos exatamente o que é realmente um estilo clássico de arte marcial. Para começar temos de reconhecer o fato incontestável de que, não importando suas origens coloridas (por um monge sábio e misterioso, por um mensageiro especial em sonhos, por uma revelação sagrada, etc.), os estilos foram criados pelos homens. Um estilo jamais deve ser considerado como verdade evangélica, cujas leis e princípios não podem jamais ser violados. O homem, ser vivo, criativo, e sempre mais importante do que qualquer estilo estabelecido.
É concebível que, há muito tempo, um certo artista marcial descobriu uma certa verdade parcial. Durante toda sua vida, este homem resistiu a tentação de organizar esta verdade parcial, embora isto seja uma tendência comum na busca do homem pela segurança e certeza da vida. Após sua morte, seus discípulos utilizaram "sua" hipótese, "seu" postulado, "sua" inclinação e "método", transformando-os em lei. Então credos impressionantes foram inventados, cerimoniais solenes prescrevidos rígida filosofia e padrões formulados, e assim por diante até que finalmente uma instituição foi erigida.
Assim, o que se originou como intuição de um só homem, de certa fluidez pessoal, foi transformando num sólido conhecimento fixo, completo com classificação organizada de reações apresentadas de ordem lógica. Desta forma, os seguidores leais bem intencionados não só fizeram deste conhecimento um santuário sagrado, mas também uma tumba, na qual enterraram toda a sabedoria do fundador.
Mas a distorção não está necessariamente aqui. Em reação com a "verdade do outro", outro artista marcial, ou possivelmente um discípulo insatisfeito organiza uma aproximação contrária, tal como o estilo "brando" versus o estilo "duro", a escola "interna" versus a escola "externa", e todas essas tolices separatistas. Logo esta facção oposta também se transforma numa grande organização com as próprias leis e padrões. Então se inicia uma rivalidade, em que cada estilo clama ser o possuidor da "verdade" com a exclusão dos demais. Quando muito, os estilos são meramente partes dissecadas de um todo. Todos os estilos requerem ajustamento, parcialidade, recusas, condenação e uma porção de auto-justificativas. As soluções que pretendem fornecer são exatamente a causa do problema, pois elas limitam e interferem o nosso crescimento natural e obstruem o caminho da compreensão genuína. Sendo separadores por natureza, os estilos mantêm os homens afastados entre si ao invés de uni-los.
A Verdade não pode ser estruturada ou confinada
Não se pode expressar-se inteiramente quando se está preso a um estilo restrito. O combate "como é" é total, e incluem todos os "é" bem com os "não é", sem linhas ou ângulos favoritos. Desprovido de limites, o combate é sempre novo, vivo e constantemente mutante. Seu estilo particular, sua inclinação pessoal e sua constituição física são todas partes do combate. Caso suas reações tornarem-se dependentes de qualquer parte isolada, eficiente ou não, não constitui o todo.
Exercícios de repetição prolongada,certamente, renderão precisão mecânica e segurança do tipo que provém de qualquer tipo de rotina. Contudo, é exatamente este tipo de segurança "seletiva" ou "muleta" que limita ou bloqueia o desenvolvimento total de de um artista marcial. De fato, um grande número de praticantes desenvolve tal gosto e dependência por suas "muletas", a ponto de não poderem andar sem elas.
Assim, qualquer técnica especial, por mais inteligentemente planejada, é na realidade um obstáculo.
Fiquemos entendidos de uma vez por todas que NÃO inventei um novo estilo composto ou modificado. De modo algum coloquei Jeet Kune Do de uma forma distinta, governada por leis que distingue "deste" estilo ou "daquele" método. Pelo contrário, espero libertar meus companheiros dos laços dos estilos, padrões ou doutrinas.
O que é então Jeet Kune Do? Literalmente "Jeet" interceptar ou parar; "Kune" é o punho; e "Do" é o caminho, a realidade suprema - o caminho do punho interceptor. Lembre-se, contudo, que "Jeet Kune Do" é meramente um nome conveniente. Não estou interessado em seu efeito de liberação, quando JKD é usado como espelho para auto exame. Ao contrário de uma arte marcial "clássica", não existem séries de regras ou um método distinto de combate "Jeet Kune Do" não é uma forma de condicionamento especial com sua própria filosofia rígida. Ele olha para o combate, não por um único ângulo, mas por todos os ângulos possíveis. Enquanto o JKD utiliza todas as formas e meios para ser seu propósito (afinal, eficiência é tudo o que importa) não é limitado por nada, sendo, portanto, livre. Em outras palavras, JKD possui tudo, porém em si mesmo, não é possuído por nada.
Portanto, tentar definir JKD em termos de estilo distinto - seja Kung Fu, Karate, briga de rua, arte marcial de Bruce Lee, etc. - e perder completamente seu significado. Seu ensino simplesmente não pode ser confinado dentro de um sistema. Desde que JKD é, de uma vez por todas, "isto" e "aquilo", ele nem se opõe e nem se adere a qualquer estilo. Para compreender isto completamente, deve-se transcender da dualidade do "pró" e "contra" numa unidade orgânica sem distinções. A compreensão de JKD é a intuição direta desta unidade.
Não existem séries prescritas ou "Kata" no ensino de JKD, nem, tampouco, são necessários. Considere a diferença sutil entre "não Ter forma" e "Ter nenhuma forma"; o primeiro é ignorância, o segundo é uma transcendência. Através da sensação instintiva do corpo, cada um de nós CONHECE nossa própria maneira mais eficiente e dinâmica de adquirir alavanca efetiva, equilíbrio em movimentos, uso econômico de energia, etc. Padrões, técnicas ou formas apenas tocam a margem do entendimento genuíno. A essência do entendimento reside na mente do indivíduo, e até que ela seja alcançada, tudo é incerto e superficial. A verdade não pode ser percebida até que venhamos a entender a nós mesmos e aos nossos potenciais. Afinal, O CONHECIMENTO NAS ARTES MARCIAIS SIGNIFICA ACIMA DE TUDO, AUTO-CONHECIMENTO.
Neste ponto você poderia perguntar: "Como posso adquirir este conhecimento?" Isso você terá de descobrir por si só. Deve aceitar o fato de que não há ajuda, mas sim auto-ajuda. Pela mesma razão que não posso lhe dizer como "ganhar" a liberdade, uma vez que a liberdade existe dentro de você. Não lhe posso dizer como ganhar o auto-conhecimento. Fórmulas somente inibem a liberdade e prescrições ditadas externamente somente esmagam a criatividade e asseguram o triunfo da mediocridade. Tenha em mente que a liberdade que advém do auto-conhecimento não pode ser adquirida pela estrita adesão a uma fórmula: nós não nos "tornamos" subitamente livres, nós simplesmente somos livres.
Aprender não é definitivamente mera imitação, nem é a habilidade de acumular e regurgitar conhecimento fixo. Aprender é um processo sem fim. Em JKD começamos não pela acumulação, mas pela descoberta da causa de nossa ignorância, descoberta essa que envolve um processo de desprendimento.
Infelizmente a maioria dos estudantes de artes marcial é conformista. Em vez de aprender a dependerem de si mesmos para se expressarem, eles seguem cegamente seus instrutores, não mais se sentindo sozinhos, e encontram a segurança na imitação em massa. O produto dessa imitação é uma mente dependente. A pesquisa independente, que é essencial para a compreensão genuína, é sacrificada. Dê uma olhada nas artes marciais e veja a variedade de praticantes de rotina, artistas de truques, robôs insensíveis, glorificadores do passado e outros - todos seguidores ou expoentes do desespero organizado.
Quão freqüentemente nos dizem os diferentes "senseis" ou "mestres" que artes marciais são a própria vida? Mas quantos deles realmente entendem o que estão dizendo? A vida é um movimento constante - tanto rítmico quanto a esmo; vida é mudança constante e não estagnação. Em vez de fluir livremente neste processo de mudança, muitos destes "mestres", do passado e do presente, construíram uma ilusão de formas fixas, rigidamente subscrevendo aos conceitos e técnicas tradicionais das artes, solidificando o sempre fluente, dissecando a totalidade. O mais doloroso é ver sinceros estudantes repetindo fervorosamente esses treinos imitativos, ouvindo seus próprios gritos e urros de seus espíritos. Na maioria dos casos, os meios que estes "senseis" oferecem a seus estudantes são tão elaborados que o aluno deve desprender tremenda atenção a eles, até que gradualmente ele perde a visão do fim. Os estudantes acabam por executar suas rotinas metódicas como mera reação condicionada, em vez de REAGIR ao "que é".
Eles não mais "ouvem" as circunstâncias. Estas pobres almas caíram bestamente na armadilha, no miasma do treinamento das artes marciais clássicas. Um professor , um realmente bom sensei, nunca é um doador da "verdade" ; ele é um guia, um indicador da verdade, que o aluno deve descobrir por si mesmo. Um bom professor, portanto, estuda cada aluno individualmente e o encoraja a explorar a si mesmo, tanto interna como externamente, até que, por fim, o estudante está integrado com seu próprio ser. Por exemplo, um mestre hábil poderia incitar o desenvolvimento do estudante, confrontando com certas frustrações. Um bom mestre é catalisador. Além de possuir um profundo entendimento, deve também Ter uma mente receptível, com grande flexibilidade e sensitividade.
Um dedo apontado para a lua
Não existe padrão no combate total e a expressão deve ser livre. Esta libertação da verdade é uma realidade somente quando ela é EXPERIMENTADA E VIVIDA pelo próprio indivíduo. É uma verdade que transcende estilos ou disciplinas.
Lembre-se, também, que Jeet Kune Do é meramente um termo, um rótulo a ser usado tal como um barco é usado para se atravessar um rio, uma vez do outro lado da margem, ele é descartado e não carregado nas costas.
Estes poucos parágrafos são quando muito, um "dedo apontado para a lua".
Por favor, não tome o dedo pela lua, nem fixe seu olhar tão intensamente no dedo a ponto de perder toda a beleza da visão celestial. Afinal, a utilidade do dedo está em apontar para longe de si a luz que o ilumina e a tudo o mais.
BRUCE LEE
SETEMBRO DE 1971
"Sou o primeiro a admitir que qualquer tentativa no sentido de cristalizar o Jeet-Kune-Do em um artigo escrito não é tarefa fácil. Talvez para evitar fazer de um processo uma coisa. Pessoalmente, até agora, não escrevi nenhum artigo sobre JKD. Na verdade, é difícil explicar o que é JKD, embora possa ser mais fácil explicar o que não é.
Deixe-me começar por uma estória de ZEN. Ela poder ser familiar para alguns, mas eu a repito devido a sua propriedade. Considerem esta estória como um modo de tornarem flexíveis seus sentidos, sua atitude e sua mente, a fim de torná-los maleáveis e receptivos. Precisarão disso para entender este artigo, do contrário é melhor nem ler o resto.
Uma vez um homem culto chegou junto a um mestre ZEN para perguntar sobre o assunto. À medida que o mestre ZEN explicava, o homem culto freqüentemente o interrompia com observações como, "Oh, sim, também temos disso..." e similares. Finalmente o mestre Zen parou de falar e começou a servir chá ao homem culto. Encheu a xícara e continuou enchendo, ainda que o chá transbordasse. "Chega!", interrompeu mais uma vez o homem culto. "A xícara já está cheia!
"Sei disso", respondeu o mestre Zen. "Se não esvaziar primeiro sua xícara, como poderá provar meu chá?"
Espero quem meus companheiros nas artes marciais leiam os parágrafos que se seguem com a mente aberta, deixando para trás toda a carga de opiniões e conclusões preconceituosas. Isso, tem por si só, um poder libertador. Afinal a utilidade da xícara consiste no fato de estar vazia.
Sobre a Observação sem Escolha
Façam com que este artigo se relacione consigo mesmo, pois, embora seja sobre JKD, ele se refere, primeiramente ao desabrochar de um artista marcial - não a um artista marcial "chinês", um artista marcial "japonês", etc. Um artista marcial e antes de tudo um ser humano. Uma vez que as nacionalidades nada têm que ver com a humanidade de cada um, elas nada têm a ver com as artes marciais. Abandone seu casulo protetor de isolamento e se relacione diretamente com o que está sendo dito . Retornem aos seus sentidos fazendo cessar as supertições intelectuais. Lembre-se de que a vida é um processo constante de relacionamento. Lembre-se, também não busco sua aprovação, nem influenciá-lo em seu modo de pensar.
Ficarei mais do que satisfeito, se, em conseqüência deste artigo, você começar a investigar tudo por si mesmo e parar de aceitar, sem críticas, fórmulas prescritas que ditam que "isto é isto" e que "aquilo é aquilo".
Suponhamos que várias pessoas, treinadas em diferentes estilos de artes combativas, presenciem uma briga de rua. Estou certo de que ouviremos diferentes versões de cada um destes estilistas. Isto é bastante compreensível, pois não se pode ver uma luta (ou qualquer outra coisa) "como é", enquanto se estiver com as vistas tampadas por um ponto de vista tendencioso, ou seja, o estilo, e visualizando a luta pelas lentes de seu condicionamento particular. A luta, "como ela é" é simples e total. Não está limitada a sua perspectiva ou condicionamento como artista marcial chinês, artista marcial coreano, ou qualquer que seja. A verdadeira observação começa quando se deixam padrões estabelecidos e a verdadeira liberdade de expressão ocorre quando se está além dos sistemas.
Antes de examinarmos Jeet Kune Do, consideremos exatamente o que é realmente um estilo clássico de arte marcial. Para começar temos de reconhecer o fato incontestável de que, não importando suas origens coloridas (por um monge sábio e misterioso, por um mensageiro especial em sonhos, por uma revelação sagrada, etc.), os estilos foram criados pelos homens. Um estilo jamais deve ser considerado como verdade evangélica, cujas leis e princípios não podem jamais ser violados. O homem, ser vivo, criativo, e sempre mais importante do que qualquer estilo estabelecido.
É concebível que, há muito tempo, um certo artista marcial descobriu uma certa verdade parcial. Durante toda sua vida, este homem resistiu a tentação de organizar esta verdade parcial, embora isto seja uma tendência comum na busca do homem pela segurança e certeza da vida. Após sua morte, seus discípulos utilizaram "sua" hipótese, "seu" postulado, "sua" inclinação e "método", transformando-os em lei. Então credos impressionantes foram inventados, cerimoniais solenes prescrevidos rígida filosofia e padrões formulados, e assim por diante até que finalmente uma instituição foi erigida.
Assim, o que se originou como intuição de um só homem, de certa fluidez pessoal, foi transformando num sólido conhecimento fixo, completo com classificação organizada de reações apresentadas de ordem lógica. Desta forma, os seguidores leais bem intencionados não só fizeram deste conhecimento um santuário sagrado, mas também uma tumba, na qual enterraram toda a sabedoria do fundador.
Mas a distorção não está necessariamente aqui. Em reação com a "verdade do outro", outro artista marcial, ou possivelmente um discípulo insatisfeito organiza uma aproximação contrária, tal como o estilo "brando" versus o estilo "duro", a escola "interna" versus a escola "externa", e todas essas tolices separatistas. Logo esta facção oposta também se transforma numa grande organização com as próprias leis e padrões. Então se inicia uma rivalidade, em que cada estilo clama ser o possuidor da "verdade" com a exclusão dos demais. Quando muito, os estilos são meramente partes dissecadas de um todo. Todos os estilos requerem ajustamento, parcialidade, recusas, condenação e uma porção de auto-justificativas. As soluções que pretendem fornecer são exatamente a causa do problema, pois elas limitam e interferem o nosso crescimento natural e obstruem o caminho da compreensão genuína. Sendo separadores por natureza, os estilos mantêm os homens afastados entre si ao invés de uni-los.
A Verdade não pode ser estruturada ou confinada
Não se pode expressar-se inteiramente quando se está preso a um estilo restrito. O combate "como é" é total, e incluem todos os "é" bem com os "não é", sem linhas ou ângulos favoritos. Desprovido de limites, o combate é sempre novo, vivo e constantemente mutante. Seu estilo particular, sua inclinação pessoal e sua constituição física são todas partes do combate. Caso suas reações tornarem-se dependentes de qualquer parte isolada, eficiente ou não, não constitui o todo.
Exercícios de repetição prolongada,certamente, renderão precisão mecânica e segurança do tipo que provém de qualquer tipo de rotina. Contudo, é exatamente este tipo de segurança "seletiva" ou "muleta" que limita ou bloqueia o desenvolvimento total de de um artista marcial. De fato, um grande número de praticantes desenvolve tal gosto e dependência por suas "muletas", a ponto de não poderem andar sem elas.
Assim, qualquer técnica especial, por mais inteligentemente planejada, é na realidade um obstáculo.
Fiquemos entendidos de uma vez por todas que NÃO inventei um novo estilo composto ou modificado. De modo algum coloquei Jeet Kune Do de uma forma distinta, governada por leis que distingue "deste" estilo ou "daquele" método. Pelo contrário, espero libertar meus companheiros dos laços dos estilos, padrões ou doutrinas.
O que é então Jeet Kune Do? Literalmente "Jeet" interceptar ou parar; "Kune" é o punho; e "Do" é o caminho, a realidade suprema - o caminho do punho interceptor. Lembre-se, contudo, que "Jeet Kune Do" é meramente um nome conveniente. Não estou interessado em seu efeito de liberação, quando JKD é usado como espelho para auto exame. Ao contrário de uma arte marcial "clássica", não existem séries de regras ou um método distinto de combate "Jeet Kune Do" não é uma forma de condicionamento especial com sua própria filosofia rígida. Ele olha para o combate, não por um único ângulo, mas por todos os ângulos possíveis. Enquanto o JKD utiliza todas as formas e meios para ser seu propósito (afinal, eficiência é tudo o que importa) não é limitado por nada, sendo, portanto, livre. Em outras palavras, JKD possui tudo, porém em si mesmo, não é possuído por nada.
Portanto, tentar definir JKD em termos de estilo distinto - seja Kung Fu, Karate, briga de rua, arte marcial de Bruce Lee, etc. - e perder completamente seu significado. Seu ensino simplesmente não pode ser confinado dentro de um sistema. Desde que JKD é, de uma vez por todas, "isto" e "aquilo", ele nem se opõe e nem se adere a qualquer estilo. Para compreender isto completamente, deve-se transcender da dualidade do "pró" e "contra" numa unidade orgânica sem distinções. A compreensão de JKD é a intuição direta desta unidade.
Não existem séries prescritas ou "Kata" no ensino de JKD, nem, tampouco, são necessários. Considere a diferença sutil entre "não Ter forma" e "Ter nenhuma forma"; o primeiro é ignorância, o segundo é uma transcendência. Através da sensação instintiva do corpo, cada um de nós CONHECE nossa própria maneira mais eficiente e dinâmica de adquirir alavanca efetiva, equilíbrio em movimentos, uso econômico de energia, etc. Padrões, técnicas ou formas apenas tocam a margem do entendimento genuíno. A essência do entendimento reside na mente do indivíduo, e até que ela seja alcançada, tudo é incerto e superficial. A verdade não pode ser percebida até que venhamos a entender a nós mesmos e aos nossos potenciais. Afinal, O CONHECIMENTO NAS ARTES MARCIAIS SIGNIFICA ACIMA DE TUDO, AUTO-CONHECIMENTO.
Neste ponto você poderia perguntar: "Como posso adquirir este conhecimento?" Isso você terá de descobrir por si só. Deve aceitar o fato de que não há ajuda, mas sim auto-ajuda. Pela mesma razão que não posso lhe dizer como "ganhar" a liberdade, uma vez que a liberdade existe dentro de você. Não lhe posso dizer como ganhar o auto-conhecimento. Fórmulas somente inibem a liberdade e prescrições ditadas externamente somente esmagam a criatividade e asseguram o triunfo da mediocridade. Tenha em mente que a liberdade que advém do auto-conhecimento não pode ser adquirida pela estrita adesão a uma fórmula: nós não nos "tornamos" subitamente livres, nós simplesmente somos livres.
Aprender não é definitivamente mera imitação, nem é a habilidade de acumular e regurgitar conhecimento fixo. Aprender é um processo sem fim. Em JKD começamos não pela acumulação, mas pela descoberta da causa de nossa ignorância, descoberta essa que envolve um processo de desprendimento.
Infelizmente a maioria dos estudantes de artes marcial é conformista. Em vez de aprender a dependerem de si mesmos para se expressarem, eles seguem cegamente seus instrutores, não mais se sentindo sozinhos, e encontram a segurança na imitação em massa. O produto dessa imitação é uma mente dependente. A pesquisa independente, que é essencial para a compreensão genuína, é sacrificada. Dê uma olhada nas artes marciais e veja a variedade de praticantes de rotina, artistas de truques, robôs insensíveis, glorificadores do passado e outros - todos seguidores ou expoentes do desespero organizado.
Quão freqüentemente nos dizem os diferentes "senseis" ou "mestres" que artes marciais são a própria vida? Mas quantos deles realmente entendem o que estão dizendo? A vida é um movimento constante - tanto rítmico quanto a esmo; vida é mudança constante e não estagnação. Em vez de fluir livremente neste processo de mudança, muitos destes "mestres", do passado e do presente, construíram uma ilusão de formas fixas, rigidamente subscrevendo aos conceitos e técnicas tradicionais das artes, solidificando o sempre fluente, dissecando a totalidade. O mais doloroso é ver sinceros estudantes repetindo fervorosamente esses treinos imitativos, ouvindo seus próprios gritos e urros de seus espíritos. Na maioria dos casos, os meios que estes "senseis" oferecem a seus estudantes são tão elaborados que o aluno deve desprender tremenda atenção a eles, até que gradualmente ele perde a visão do fim. Os estudantes acabam por executar suas rotinas metódicas como mera reação condicionada, em vez de REAGIR ao "que é".
Eles não mais "ouvem" as circunstâncias. Estas pobres almas caíram bestamente na armadilha, no miasma do treinamento das artes marciais clássicas. Um professor , um realmente bom sensei, nunca é um doador da "verdade" ; ele é um guia, um indicador da verdade, que o aluno deve descobrir por si mesmo. Um bom professor, portanto, estuda cada aluno individualmente e o encoraja a explorar a si mesmo, tanto interna como externamente, até que, por fim, o estudante está integrado com seu próprio ser. Por exemplo, um mestre hábil poderia incitar o desenvolvimento do estudante, confrontando com certas frustrações. Um bom mestre é catalisador. Além de possuir um profundo entendimento, deve também Ter uma mente receptível, com grande flexibilidade e sensitividade.
Um dedo apontado para a lua
Não existe padrão no combate total e a expressão deve ser livre. Esta libertação da verdade é uma realidade somente quando ela é EXPERIMENTADA E VIVIDA pelo próprio indivíduo. É uma verdade que transcende estilos ou disciplinas.
Lembre-se, também, que Jeet Kune Do é meramente um termo, um rótulo a ser usado tal como um barco é usado para se atravessar um rio, uma vez do outro lado da margem, ele é descartado e não carregado nas costas.
Estes poucos parágrafos são quando muito, um "dedo apontado para a lua".
Por favor, não tome o dedo pela lua, nem fixe seu olhar tão intensamente no dedo a ponto de perder toda a beleza da visão celestial. Afinal, a utilidade do dedo está em apontar para longe de si a luz que o ilumina e a tudo o mais.
BRUCE LEE
SETEMBRO DE 1971
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
BE WATER

Inquietude constante. Caminho pela rua, nos trens, metros, buses e meu corpoalma em estado de vigilância e sobressalto constante. Como haveria de ser diferente? Cada som, paisagem e elemento constituinte do meu cotidiano foi transformado. Para além do senso comum de que nossas vidas são transformadas quando mudamos de país, venho experimentando um turbilhão de novos códigos que meu ser está codificando aos poucos, mas às custas desse estado de atenção constante.
Nunca me pareceu tão concreta e sinestésica a teoria de estímulos externos e adaptação ao meio. Cada diálogo demanda um nível de concentração maior; os pássaros cantam diferente; os corpos movimentam-se e interagem de uma nova forma. Me sinto como se estivesse aprendendo a ler. E o pior é que não me lembro como esse processo se deu em minha língua e cultura natais, pois, quem sabe se lembrara, isso me ajudaria nas analogias e comparações para desvendar esses “complexos fatos simples” que se põem à minha frente.
Mas isso não será problema. Meu amigo já diria há muito tempo atrás:
BE WATER MY FRIEND....(Lee)
10-12-2009 Madrid
Nunca me pareceu tão concreta e sinestésica a teoria de estímulos externos e adaptação ao meio. Cada diálogo demanda um nível de concentração maior; os pássaros cantam diferente; os corpos movimentam-se e interagem de uma nova forma. Me sinto como se estivesse aprendendo a ler. E o pior é que não me lembro como esse processo se deu em minha língua e cultura natais, pois, quem sabe se lembrara, isso me ajudaria nas analogias e comparações para desvendar esses “complexos fatos simples” que se põem à minha frente.
Mas isso não será problema. Meu amigo já diria há muito tempo atrás:
BE WATER MY FRIEND....(Lee)
10-12-2009 Madrid
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
DE CORPO PRESENTE
Segunda-feira, 30/11/2009
01h30min AM
Hoje esfriou bastante e agora estou aqui na madrugada sem sono. Primeiro dia que a saudade apertou forte. Daquelas de esfregar as mãos e olhar pro vazio da parede...é possível que seja o frio, mesmo.
Na dúvida colei umas fotos deles e dela, nas paredes e nas portas do armário. Esquentou o suficiente pra tentar dormir...
01h30min AM
Hoje esfriou bastante e agora estou aqui na madrugada sem sono. Primeiro dia que a saudade apertou forte. Daquelas de esfregar as mãos e olhar pro vazio da parede...é possível que seja o frio, mesmo.
Na dúvida colei umas fotos deles e dela, nas paredes e nas portas do armário. Esquentou o suficiente pra tentar dormir...
terça-feira, 10 de novembro de 2009

O potencial criativo do ser humano mais uma vez me toca. Não é novidade que a prática dos famosos RPGs (Role Playing Games) não apenas continua firme em determinados grupos sociais, como vem se desenvolvendo. Recentemente tive a chance de testemunhar um dos encontros de LARP (Live Action Role Playing) no Parque do Ibirapuera, em que um grupo auto-intitulado Graal tem realizado suas atividades já há alguns anos.
A bem da verdade não foi a primeira vez que testemunhei essa atividade a pleno vapor. Em certa ocasião estava com minha namorada comendo em um Fran’s Café após uma das edições da Virada Cultural na madrugada, quando alguns indivíduos fantasiados entraram no salão portando armas de brinquedo e com estilos próprios (um samurai, um ao estilo Matrix, uma vampiro, etc). Sentaram-se em uma mesa em que outros tipos estranhos já estavam sentados e começaram a debater ameaças e confrontos de seus grupos. Uma cena digna do filme Os Selvagens da Noite, em que gangues de rua se enfrentam, só que no caso era uma “brincadeira”....bem...ao menos assim espero.
O grande diferencial dos LARPs é que os famigerados personagens de RPG aqui ganham vida. Seus praticantes usam fantasias medievais e existe uma vasta gama de seres, criaturas e grupos dos quais cada personagem pode fazer parte. Pode parecer brincadeira de criança, mas são na verdade marmanjos nos seus 20 anos de idade que, como se não bastasse a interpretação dos personagens, praticam inclusive as formas de combate medievais com armas de brinquedo. Como primeira impressão tive certa vergonha alheia aos testemunhar aqueles corpos em sua maioria estranhos à pratica de atividade física em notável exercício de coordenação motora com ares de ritual sagrado. Na verdade a vergonha continua e a cena é quase ridícula (desculpe se parecer preconceituoso), mas me suscitou posteriores reflexões sobre o fato de que as formas de expressão da cultura corporal não seguem parâmetros óbvios e que ainda existe uma parcela underground que ajuda a redefinir e transformar essas expressões. Ocorreu-me ainda que o imaginário lúdico corporal que por vezes julgamos atrofiado e que buscamos reacender em aulas de Educação Física escolar está aí, livre e solto. Que existem pessoas com coragem suficiente para vivenciar o desconhecido por meio de seus corpos independentemente de opiniões externas. Que ainda tem muita gente “doida” por aí.....e que isso pode ser saudável.....
O site deles:
http://www.graalrpg.com
A bem da verdade não foi a primeira vez que testemunhei essa atividade a pleno vapor. Em certa ocasião estava com minha namorada comendo em um Fran’s Café após uma das edições da Virada Cultural na madrugada, quando alguns indivíduos fantasiados entraram no salão portando armas de brinquedo e com estilos próprios (um samurai, um ao estilo Matrix, uma vampiro, etc). Sentaram-se em uma mesa em que outros tipos estranhos já estavam sentados e começaram a debater ameaças e confrontos de seus grupos. Uma cena digna do filme Os Selvagens da Noite, em que gangues de rua se enfrentam, só que no caso era uma “brincadeira”....bem...ao menos assim espero.
O grande diferencial dos LARPs é que os famigerados personagens de RPG aqui ganham vida. Seus praticantes usam fantasias medievais e existe uma vasta gama de seres, criaturas e grupos dos quais cada personagem pode fazer parte. Pode parecer brincadeira de criança, mas são na verdade marmanjos nos seus 20 anos de idade que, como se não bastasse a interpretação dos personagens, praticam inclusive as formas de combate medievais com armas de brinquedo. Como primeira impressão tive certa vergonha alheia aos testemunhar aqueles corpos em sua maioria estranhos à pratica de atividade física em notável exercício de coordenação motora com ares de ritual sagrado. Na verdade a vergonha continua e a cena é quase ridícula (desculpe se parecer preconceituoso), mas me suscitou posteriores reflexões sobre o fato de que as formas de expressão da cultura corporal não seguem parâmetros óbvios e que ainda existe uma parcela underground que ajuda a redefinir e transformar essas expressões. Ocorreu-me ainda que o imaginário lúdico corporal que por vezes julgamos atrofiado e que buscamos reacender em aulas de Educação Física escolar está aí, livre e solto. Que existem pessoas com coragem suficiente para vivenciar o desconhecido por meio de seus corpos independentemente de opiniões externas. Que ainda tem muita gente “doida” por aí.....e que isso pode ser saudável.....
O site deles:
http://www.graalrpg.com
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
“Às vezes, mal se imagina o que pode passar a representar na vida de um aluno um simples gesto do professor. O que pode um gesto aparentemente insignificante valer como força formadora ou como contribuição à do educando por sim mesmo. Nunca me esqueço, na história já longe de minha memória de um desses gestos de professor que tive na adolescência remota. Gesto cuja significação mais profunda talvez tenha passado despercebida por ele, o professor, e que teve importante influência sobre mim. Estava sendo, então, um adolescente inseguro, vendo-me como um corpo anguloso e feio, percebendo-me menos capaz do que os outros, fortemente incerto de minhas possibilidades. Era muito mais mal-humorado que apaziguado com a vida. Facilmente me eriçava. Qualquer consideração feita por um colega rico da classe já me parecia o chamamento à atenção de minhas fragilidades, de minha insegurança.
O professor trouxera de casa os nossos trabalhos escolares e, chamando-nos um a um, devolvia-os com seu ajuizamento. Em certo momento me chama e, olhando ou re-olhando o meu texto, sem dizer palavra, balança a cabeça numa demonstração de respeito e de consideração. O gesto do professor me trazia uma confiança ainda obviamente desconfiada de que era possível trabalhar e produzir. De que era possível confiar em mim mas que seria tão errado confiar além dos limites quanto errado estava sendo não confiar. A melhor prova da importância daquele gesto é que dele falo agora como se tivesse sido testemunhado hoje. E faz, na verdade, muito tempo que ele ocorreu.”
PAULO FREIRE
Pedagogia da Autonomia
O professor trouxera de casa os nossos trabalhos escolares e, chamando-nos um a um, devolvia-os com seu ajuizamento. Em certo momento me chama e, olhando ou re-olhando o meu texto, sem dizer palavra, balança a cabeça numa demonstração de respeito e de consideração. O gesto do professor me trazia uma confiança ainda obviamente desconfiada de que era possível trabalhar e produzir. De que era possível confiar em mim mas que seria tão errado confiar além dos limites quanto errado estava sendo não confiar. A melhor prova da importância daquele gesto é que dele falo agora como se tivesse sido testemunhado hoje. E faz, na verdade, muito tempo que ele ocorreu.”
PAULO FREIRE
Pedagogia da Autonomia
domingo, 10 de agosto de 2008
Se essa rua fosse minha

Sempre que possível pego minha bicicleta e dou uma volta pelo Parque Ibirapuera ou pelas ruas do bairro. Não raramente testemunho uma cena interessante, onde um grupo ou por vezes mais de um se juntam na prática do Parkour.
Surgido recentemente no cenário nacional e internacional, o Le Parkour é uma manifestação corporal de criação creditada ao francês David Belle, que o desenvolveu com base em suas vivências pessoais em diferentes modalidades esportivas como a Ginástica Artística. Caracteriza-se pelos seus movimentos acrobáticos que têm por fim transpor um percurso ou objeto de formas variadas e com o mínimo de interrupção, buscando a liberdade e fluidez dos movimentos.
A prática do Le Parkour se expandiu significativamente pelo mundo e seus praticantes buscam definir moldes esportivos para a mesma, com a organização de Associações, Federações e eventos internacionais.
Qualquer espaço físico pode ser utilizado para a prática do Parkour, uma vez que se espera apenas que exista uma variedade de obstáculos ou possibilidades de variação na transposição dos mesmos. Essa prática tem se difundido principalmente entre os grandes centros urbanos, em que a organização do espaço físico muitas vezes se caracteriza pelo crescimento desorientado devido à inúmeros fatores como o crescimento populacional, aumento das construções erguidas pelo ser humano, entre outros. A bem da verdade, quanto maior a quantidade e variedade de elementos físicos, maior a variabilidade da prática do Parkour (praticante) experiente.
O ponto que me interessa aqui é a representação da prática do Parkour como um movimento de reapropriação do espaço público. Se, por um lado, o crescimento desenfreado da cidade resultou na perda da rua ou dos espaços públicos como locais de prática esportiva, lazer e recreação, por outro ela se tornou fisicamente mais apropriada para a prática dessa manifestação em específico.
A rua, outrora local de encontro e de prática de brincadeiras e jogos, que passara pela perda desse reconhecimento no imaginário e cultura popular tem, ao menos para o praticante de Parkour, reassumido aquele papel original.
Deixando de lado a linguagem mais acadêmica, ver um grupo de jovens praticando Parkour me causa uma enorme satisfação, um sentimento de retomada de espaço que sempre foi e sempre será meu enquanto cidadão carente de lazer, ócio e tudo mais.
Espero apenas que tal prática não se “esportivize” exageradamente, pois é quando se perde o que há de mais belo numa prática corporal, o simples prazer da prática, que no Parkour está tão associado à liberdade, condição tão esquecida na atualidade.
Surgido recentemente no cenário nacional e internacional, o Le Parkour é uma manifestação corporal de criação creditada ao francês David Belle, que o desenvolveu com base em suas vivências pessoais em diferentes modalidades esportivas como a Ginástica Artística. Caracteriza-se pelos seus movimentos acrobáticos que têm por fim transpor um percurso ou objeto de formas variadas e com o mínimo de interrupção, buscando a liberdade e fluidez dos movimentos.
A prática do Le Parkour se expandiu significativamente pelo mundo e seus praticantes buscam definir moldes esportivos para a mesma, com a organização de Associações, Federações e eventos internacionais.
Qualquer espaço físico pode ser utilizado para a prática do Parkour, uma vez que se espera apenas que exista uma variedade de obstáculos ou possibilidades de variação na transposição dos mesmos. Essa prática tem se difundido principalmente entre os grandes centros urbanos, em que a organização do espaço físico muitas vezes se caracteriza pelo crescimento desorientado devido à inúmeros fatores como o crescimento populacional, aumento das construções erguidas pelo ser humano, entre outros. A bem da verdade, quanto maior a quantidade e variedade de elementos físicos, maior a variabilidade da prática do Parkour (praticante) experiente.
O ponto que me interessa aqui é a representação da prática do Parkour como um movimento de reapropriação do espaço público. Se, por um lado, o crescimento desenfreado da cidade resultou na perda da rua ou dos espaços públicos como locais de prática esportiva, lazer e recreação, por outro ela se tornou fisicamente mais apropriada para a prática dessa manifestação em específico.
A rua, outrora local de encontro e de prática de brincadeiras e jogos, que passara pela perda desse reconhecimento no imaginário e cultura popular tem, ao menos para o praticante de Parkour, reassumido aquele papel original.
Deixando de lado a linguagem mais acadêmica, ver um grupo de jovens praticando Parkour me causa uma enorme satisfação, um sentimento de retomada de espaço que sempre foi e sempre será meu enquanto cidadão carente de lazer, ócio e tudo mais.
Espero apenas que tal prática não se “esportivize” exageradamente, pois é quando se perde o que há de mais belo numa prática corporal, o simples prazer da prática, que no Parkour está tão associado à liberdade, condição tão esquecida na atualidade.
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
INTENÇÃO I
Os dois chegaram quase ao mesmo tempo no bar, cada um acompanhado de seu respectivo grupo de amigos e amigas. Eles foram se sentar enquanto elas foram ao banheiro ajeitar a roupa e a maquiagem. Ele, freqüentador assíduo do estabelecimento, posicionou-se de forma estratégica perto do músico, num canto do salão de modo que pudesse visualizar o ambiente e simultaneamente ser visto. Ela, terminada a produção, desfilou do banheiro ao balcão exibindo sua impressionante curvatura lombar usada em momentos adequados com o olhar fixo no horizonte.
As conversas se desenvolveram em ambos os grupos com temas dos mais variados, mas ele e ela não se distraíram do objetivo principal daquela noite. Realizaram uma breve etnografia visual do ambiente no intuito de identificar as possíveis presas. Ele, esquadrinhando metro a metro o ambiente bate os olhos na figura feminina que parece também buscar algo. Observa sua vestimenta e seu modo de agir, as nuances de seu corpo, seu sorriso e a intencionalidade implícita em seus gestos.
Ela, na aparente descontração da conversa com as amigas, perscruta o território na tentativa de identificar os melhores receptores para seus ferormônios. Num dado momento os olhares se cruzam, e é então que o elo se estabelece quase que como numa faísca próxima de gasolina. Difícil dizer quem flerta com quem, de quem é a iniciativa, mas também não importa.
O olhar é preciso. Nem muito longo para não se tornar invasivo ou constrangedor, nem muito breve para não se confundir com um olhar qualquer, e acompanha uma energia que não deixa dúvidas.
É noite de caça....
As conversas se desenvolveram em ambos os grupos com temas dos mais variados, mas ele e ela não se distraíram do objetivo principal daquela noite. Realizaram uma breve etnografia visual do ambiente no intuito de identificar as possíveis presas. Ele, esquadrinhando metro a metro o ambiente bate os olhos na figura feminina que parece também buscar algo. Observa sua vestimenta e seu modo de agir, as nuances de seu corpo, seu sorriso e a intencionalidade implícita em seus gestos.
Ela, na aparente descontração da conversa com as amigas, perscruta o território na tentativa de identificar os melhores receptores para seus ferormônios. Num dado momento os olhares se cruzam, e é então que o elo se estabelece quase que como numa faísca próxima de gasolina. Difícil dizer quem flerta com quem, de quem é a iniciativa, mas também não importa.
O olhar é preciso. Nem muito longo para não se tornar invasivo ou constrangedor, nem muito breve para não se confundir com um olhar qualquer, e acompanha uma energia que não deixa dúvidas.
É noite de caça....
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Discurso de Formatura - 2007
Boa noite a todos: formandos, senhores pais, professores e demais presentes. Na correria da organização das formalidades acabei me tornando o orador da turma de formandos em licenciatura desse ano. Esses daqui já sabem, mas os senhores não se assustem se eu chorar.
Os formandos em Licenciatura que aqui estão, futuros professores de Educação Física, ou não, vêm de diferentes anos de ingresso na EEFEUSP: 2002, 2001, 2000....enfim. Por esse motivo minha tarefa não é nada fácil: falar por diferentes grupos de alunos, estudantes, amigos.
Acredito que existe, porém, uma motivação comum a todos nós. Motivação esta que nos fez procurar a Diretoria da EEFE e retomar o espaço oficial dos formandos em licenciatura nessa cerimônia. Este elo que nos une é ao mesmo tempo óbvio e complexo, pois se trata nada menos da própria paixão pela educação e pela profissão de professor. Óbvio no sentido de que nos preocupamos em prosseguir com a formação voltada para a educação quando ingressamos no curso de licenciatura, porém complexo quando buscamos identificar os motivos individuais para a escolha dessa decisão. Com um simples olhar vocês podem perceber que somos diferentes, cada um a seu jeito, e cada um construído por uma história de vida com significados e valores tão fortes que só nos cabe imaginar. Por qual motivo nos tornaremos professores? Quem sabe tivemos um que mudou nossa vida com um gesto ou olhar; ou ficamos maravilhados com a resposta da criança que não foi a que esperávamos ouvir, mas que nos mostrou outra forma de pensar; quem sabe temos apenas curiosidade em saber como se ensina e aprende; ou não nos cansamos de aprender qualquer coisa; talvez queiramos promover a mudança social....é, isso COM CERTEZA NÓS QUEREMOS; talvez uma dessas coisas ou todas elas juntas nos tenham feito seguir com esse sonho.
Mas não se deixem levar pela emoção, pois não posso afirmar que foi fácil, e muito menos que cumprimos tudo com um sorriso no rosto. Muito pelo contrário, após passar 4 anos sendo moldados para nos tornarmos unicamente profissionais da saúde tivemos que reconstruir várias formas de pensar num processo lento e quase doloroso para alguns.
Aliás essa é uma sugestão para nossos mestres e colegas, se é que nos cabe sugerir alguma coisa. Mestres, permitam um espaço maior ao curso de Licenciatura, e colegas, briguem muito por ele. Sabemos que mudanças curriculares estão a caminho e ficamos felizes embora sejamos diretamente beneficiados por elas. Acreditamos somente que o tempo de que dispomos na nossa formação poderia ter sido melhor aproveitado se houvesse a possibilidade.
Não me entendam mal, pois não quero soar pedante ou mal-agradecido...apenas um pouco...crítico. Espírito crítico aliás muito presente na minha saudosa turma de ingresso, e que gostaríamos de expressar aqui quebrando alguns protocolos. Protocolos esses que nos dizem que poderíamos homenagear somente um professor e funcionário. Pois bem, seremos rápidos, mas gostaríamos de deixar nossas homenagens também aos outros professores do curso de licenciatura: Prof. Marcos Neira e Prof. Mário Nunes. Obrigado por expandirem nossas mentes e cultura...corporal ou não....
Queremos também prestar uma homenagem a outro funcionário da Escola, com o qual muito nos identificamos por sua postura reivindicatória e que sempre lutou de coração pelos direitos de seus colegas funcionários independentemente das pressões vindas de qualquer nível: Rocha!
Falando em coração, não poderia deixar de expressar as saudades que já sinto e que fazem o meu apertar. Saudade da alegria contagiante do Bellan, do Markin, do Murilo, da Pri e do Klaus; da amizade do Léo e do Jony; da superioridade do Breno; do apoio e prontidão do Carlão, do Massaru, da Naty e da Celeste; do foda-se do Imamura; da seriedade acadêmica do Guilhermão e da Carolzinha; da dedicação incansável ao trabalho do Viotti, do Darlan, da Thaís, da Dani; do bom-humor do Gustavo, do Daniel, do Césinha, do Guilherminho e do Adriano; da criticidade e idealismo do Heitor e do Diogo; do temperamento delicioso da Maíce e da Flavinha; da tranquilidade de convivência da Andréa, da Sula, do Caio, da Gaby, da Lívia, da Lud e da Ingrid; do humor refinado do Douglas, do Wagner e do Rotta; da saudade da Cris, do Rafael, do David, do Dimmy, do Glauco, do Pezão, do Márcio, do Benjamim e do Tymer; da seriedade exemplar da Sandra, do Lobo, do Dário e da Ana Paula; do companheirismo da Ciça, do André, do Suzuki, da Re Garrido, da Vivian e da Mônica; da integridade moral do Tom.
Sentirei falta também das risadas que compartilhei com todos os meus amigos aqui presentes ou não. Lembro-me quando percebemos que também teríamos que estudar na faculdade, mas só depois de já ter tomado pau em Bioquímica e Citologia (Salve GG). Me lembro das últimas festas decentes no Quiosque; me lembro das festas na República Eitha Poha em que as coisas mais divertidas aconteciam; me lembro das bandas dos amigos músicos; me lembro da saudosa República Vergamota; me lembro dos churrascos no sítio da Paulinha, onde o Guilhermão em estado de consciência duvidoso deitou em um formigueiro e infelizmente descobriu que não.....as formigas não páram de morder quando você pula na piscina; me lembro dos Interefs...ao menos alguns flashes...; Lembro-me de vôlei nos intervalos das aulas; me lembro de um papelzinho escrito “REVOLTEM-SE!” que denunciava as tantas coisas erradas da nossa Escola; me lembro das greves...só não lembro quantas foram.....; Lembro-me de um Centro Acadêmico política e de luta, ainda que por vezes boicotado pelas engrenagens dos colegiados e comissões; me lembro de uma Empresa Júnior se reerguendo; me lembro de uma Atlética organizada e campeã; me lembro das lavagens de corredor, de todas!! Até de uma feita a seco, por um único indivíduo até hoje; do Megaval de mesa; e é claro do Futebol pelado, aquele em que houve sindicância e perseguição dos participantes, que não foram facilmente identificados devido à cueca que usavam.....na cabeça; me lembro do Seu Daniel; dos vestiários quebrados antes da reforma; das árvores que davam lugar aos canos laranjas; do Pirajussara nos dias de calor; das festas da USP; das crianças e adolescentes que NÂO deveriam estar nas festas da USP, dos amigos da São Remo; das Corridas de Tora e do Movimento Rústico que se acabou; das pirâmides; da sala anti-aluno de antes com computador quebrado; lembro que nossa Escola fez 70 anos; lembro do Rei Massucato que cumprimentava todo mundo até quem ele não conhecia; NÃO lembro absolutamente nada do que aprendi em Estatística; lembro do salgado da Tia, que variava de preço junto com a gasolina; de dormir no tatame e no colchão de ginástica; lembro dos professores, um deles me falando que tínhamos que sair da média, média que eu interpretei não como a ponderada, mas a média do aluno comum que entra e sai sem saber por onde passou.
É por isso que, de grau colado, como um recente Prof de Educação Física desempregado, vou me lembrar é das pequenas mas importantes coisas que me fizeram o profissional que sou. E vamos, todos, movidos por ideais subjetivos ainda que alicerces fundamentais, nos movimentando ao dizer de Rudolf Laban:
“O homem se movimenta a fim de satisfazer uma necessidade. Com sua movimentação, tem por objetivo atingir algo que lhe é valioso. É fácil perceber o objetivo do movimento de uma pessoa, se é dirigida para algum objeto tangível. Entretanto, há também valores intangíveis que inspiram movimentos”.
Os formandos em Licenciatura que aqui estão, futuros professores de Educação Física, ou não, vêm de diferentes anos de ingresso na EEFEUSP: 2002, 2001, 2000....enfim. Por esse motivo minha tarefa não é nada fácil: falar por diferentes grupos de alunos, estudantes, amigos.
Acredito que existe, porém, uma motivação comum a todos nós. Motivação esta que nos fez procurar a Diretoria da EEFE e retomar o espaço oficial dos formandos em licenciatura nessa cerimônia. Este elo que nos une é ao mesmo tempo óbvio e complexo, pois se trata nada menos da própria paixão pela educação e pela profissão de professor. Óbvio no sentido de que nos preocupamos em prosseguir com a formação voltada para a educação quando ingressamos no curso de licenciatura, porém complexo quando buscamos identificar os motivos individuais para a escolha dessa decisão. Com um simples olhar vocês podem perceber que somos diferentes, cada um a seu jeito, e cada um construído por uma história de vida com significados e valores tão fortes que só nos cabe imaginar. Por qual motivo nos tornaremos professores? Quem sabe tivemos um que mudou nossa vida com um gesto ou olhar; ou ficamos maravilhados com a resposta da criança que não foi a que esperávamos ouvir, mas que nos mostrou outra forma de pensar; quem sabe temos apenas curiosidade em saber como se ensina e aprende; ou não nos cansamos de aprender qualquer coisa; talvez queiramos promover a mudança social....é, isso COM CERTEZA NÓS QUEREMOS; talvez uma dessas coisas ou todas elas juntas nos tenham feito seguir com esse sonho.
Mas não se deixem levar pela emoção, pois não posso afirmar que foi fácil, e muito menos que cumprimos tudo com um sorriso no rosto. Muito pelo contrário, após passar 4 anos sendo moldados para nos tornarmos unicamente profissionais da saúde tivemos que reconstruir várias formas de pensar num processo lento e quase doloroso para alguns.
Aliás essa é uma sugestão para nossos mestres e colegas, se é que nos cabe sugerir alguma coisa. Mestres, permitam um espaço maior ao curso de Licenciatura, e colegas, briguem muito por ele. Sabemos que mudanças curriculares estão a caminho e ficamos felizes embora sejamos diretamente beneficiados por elas. Acreditamos somente que o tempo de que dispomos na nossa formação poderia ter sido melhor aproveitado se houvesse a possibilidade.
Não me entendam mal, pois não quero soar pedante ou mal-agradecido...apenas um pouco...crítico. Espírito crítico aliás muito presente na minha saudosa turma de ingresso, e que gostaríamos de expressar aqui quebrando alguns protocolos. Protocolos esses que nos dizem que poderíamos homenagear somente um professor e funcionário. Pois bem, seremos rápidos, mas gostaríamos de deixar nossas homenagens também aos outros professores do curso de licenciatura: Prof. Marcos Neira e Prof. Mário Nunes. Obrigado por expandirem nossas mentes e cultura...corporal ou não....
Queremos também prestar uma homenagem a outro funcionário da Escola, com o qual muito nos identificamos por sua postura reivindicatória e que sempre lutou de coração pelos direitos de seus colegas funcionários independentemente das pressões vindas de qualquer nível: Rocha!
Falando em coração, não poderia deixar de expressar as saudades que já sinto e que fazem o meu apertar. Saudade da alegria contagiante do Bellan, do Markin, do Murilo, da Pri e do Klaus; da amizade do Léo e do Jony; da superioridade do Breno; do apoio e prontidão do Carlão, do Massaru, da Naty e da Celeste; do foda-se do Imamura; da seriedade acadêmica do Guilhermão e da Carolzinha; da dedicação incansável ao trabalho do Viotti, do Darlan, da Thaís, da Dani; do bom-humor do Gustavo, do Daniel, do Césinha, do Guilherminho e do Adriano; da criticidade e idealismo do Heitor e do Diogo; do temperamento delicioso da Maíce e da Flavinha; da tranquilidade de convivência da Andréa, da Sula, do Caio, da Gaby, da Lívia, da Lud e da Ingrid; do humor refinado do Douglas, do Wagner e do Rotta; da saudade da Cris, do Rafael, do David, do Dimmy, do Glauco, do Pezão, do Márcio, do Benjamim e do Tymer; da seriedade exemplar da Sandra, do Lobo, do Dário e da Ana Paula; do companheirismo da Ciça, do André, do Suzuki, da Re Garrido, da Vivian e da Mônica; da integridade moral do Tom.
Sentirei falta também das risadas que compartilhei com todos os meus amigos aqui presentes ou não. Lembro-me quando percebemos que também teríamos que estudar na faculdade, mas só depois de já ter tomado pau em Bioquímica e Citologia (Salve GG). Me lembro das últimas festas decentes no Quiosque; me lembro das festas na República Eitha Poha em que as coisas mais divertidas aconteciam; me lembro das bandas dos amigos músicos; me lembro da saudosa República Vergamota; me lembro dos churrascos no sítio da Paulinha, onde o Guilhermão em estado de consciência duvidoso deitou em um formigueiro e infelizmente descobriu que não.....as formigas não páram de morder quando você pula na piscina; me lembro dos Interefs...ao menos alguns flashes...; Lembro-me de vôlei nos intervalos das aulas; me lembro de um papelzinho escrito “REVOLTEM-SE!” que denunciava as tantas coisas erradas da nossa Escola; me lembro das greves...só não lembro quantas foram.....; Lembro-me de um Centro Acadêmico política e de luta, ainda que por vezes boicotado pelas engrenagens dos colegiados e comissões; me lembro de uma Empresa Júnior se reerguendo; me lembro de uma Atlética organizada e campeã; me lembro das lavagens de corredor, de todas!! Até de uma feita a seco, por um único indivíduo até hoje; do Megaval de mesa; e é claro do Futebol pelado, aquele em que houve sindicância e perseguição dos participantes, que não foram facilmente identificados devido à cueca que usavam.....na cabeça; me lembro do Seu Daniel; dos vestiários quebrados antes da reforma; das árvores que davam lugar aos canos laranjas; do Pirajussara nos dias de calor; das festas da USP; das crianças e adolescentes que NÂO deveriam estar nas festas da USP, dos amigos da São Remo; das Corridas de Tora e do Movimento Rústico que se acabou; das pirâmides; da sala anti-aluno de antes com computador quebrado; lembro que nossa Escola fez 70 anos; lembro do Rei Massucato que cumprimentava todo mundo até quem ele não conhecia; NÃO lembro absolutamente nada do que aprendi em Estatística; lembro do salgado da Tia, que variava de preço junto com a gasolina; de dormir no tatame e no colchão de ginástica; lembro dos professores, um deles me falando que tínhamos que sair da média, média que eu interpretei não como a ponderada, mas a média do aluno comum que entra e sai sem saber por onde passou.
É por isso que, de grau colado, como um recente Prof de Educação Física desempregado, vou me lembrar é das pequenas mas importantes coisas que me fizeram o profissional que sou. E vamos, todos, movidos por ideais subjetivos ainda que alicerces fundamentais, nos movimentando ao dizer de Rudolf Laban:
“O homem se movimenta a fim de satisfazer uma necessidade. Com sua movimentação, tem por objetivo atingir algo que lhe é valioso. É fácil perceber o objetivo do movimento de uma pessoa, se é dirigida para algum objeto tangível. Entretanto, há também valores intangíveis que inspiram movimentos”.
sábado, 28 de junho de 2008
CALÇA-ME OU TE DEVORO

Paula ficou parada ali, olhando para a vitrine por algum tempo. A calça era linda! Durante o resto do dia não a tirou da cabeça. Foi até dormir com a idéia de comprá-la.
Naquela noite Paula teve um sonho esquisito. Sonhou que estava cercada de calças como a da vitrine, sem conseguir se mexer. De súbito uma calça deu um passo a frente e disse:
- Sua raça está em extinção. Vocês já iniciaram seu processo de auto-aniquilação. Não me refiro ao desaparecimento da raça humana como decorrência de catástrofes climáticas produzidas pelo homem; de epidemias; de guerras ou qualquer outra hipótese. Refiro-me ao processo em andamento no qual vocês todos se tornarão coisas.
O ser humano iniciou um declínio para o abismo da perda de subjetividade, em que não conseguirá nem mesmo identificar-se como ser vivente. Se antes eram os humanos os protagonistas da história através de sua atuação enquanto sujeitos da ação, agora o oposto se estabelece. O homem reificado, transformado em coisa, passará a ser mero objeto da ação.
Você deve estar se perguntando como isso poderia acontecer. Ora, isso é muito claro dado que é o único motivo pelo qual eu posso me expressar nesse momento. Quando você me olhou naquela vitrine, cedeu-me a vida e perdeu a sua.
No passado, eu, enquanto calça, estaria sujeita à vontade do ser humano em qualquer circunstância. Estaria submetida primeiramente ao desejo dele em me obter. Caso comprada, se não me ajustasse perfeitamente ao meu novo proprietário, ele encomendaria ou mesmo faria pessoalmente ajustes de modo que eu me adequasse ao seu corpo de acordo com seu intuito. O homem, então, ainda gozava de seu arbítrio desvinculado do fantasma do corpo esteticamente apresentável. Aos poucos, nós, objetos inanimados fomos conquistando cada vez mais espaço.
Nos dias de hoje o processo se inverteu. A raça humana está submetida à força daquilo que deseja obter. Se hoje você me desejar e eu não me adequar ao seu corpo, quem deverá passar pelo processo de ajuste é você. Caso eu lhe aperte, será você quem tem que perder peso. Caso eu fique larga, é você quem tem que desenvolver sua musculatura, ou colocar próteses. E, apática, você seguirá minhas ordens, pois nem mesmo consciência tomou da situação.
Num sobressalto, Paula acordou. Estava suando e ofegante. Por um breve instante lembrou de sua avó que lhe dizia, quando criança, que sempre desse atenção aos seus sonhos, pois poderiam ser importantes. Um pouco depois pegou no sono novamente.
Pela manhã, sono recobrado, sonho esquecido, Paula se levanta. Durante o café lembra-se da calça que vira na vitrine no dia anterior. Resolve que vai comprá-la, mas antes precisa dar um jeito naquela barriga. Qual era mesmo o telefone daquele cirurgião plástico...?
Naquela noite Paula teve um sonho esquisito. Sonhou que estava cercada de calças como a da vitrine, sem conseguir se mexer. De súbito uma calça deu um passo a frente e disse:
- Sua raça está em extinção. Vocês já iniciaram seu processo de auto-aniquilação. Não me refiro ao desaparecimento da raça humana como decorrência de catástrofes climáticas produzidas pelo homem; de epidemias; de guerras ou qualquer outra hipótese. Refiro-me ao processo em andamento no qual vocês todos se tornarão coisas.
O ser humano iniciou um declínio para o abismo da perda de subjetividade, em que não conseguirá nem mesmo identificar-se como ser vivente. Se antes eram os humanos os protagonistas da história através de sua atuação enquanto sujeitos da ação, agora o oposto se estabelece. O homem reificado, transformado em coisa, passará a ser mero objeto da ação.
Você deve estar se perguntando como isso poderia acontecer. Ora, isso é muito claro dado que é o único motivo pelo qual eu posso me expressar nesse momento. Quando você me olhou naquela vitrine, cedeu-me a vida e perdeu a sua.
No passado, eu, enquanto calça, estaria sujeita à vontade do ser humano em qualquer circunstância. Estaria submetida primeiramente ao desejo dele em me obter. Caso comprada, se não me ajustasse perfeitamente ao meu novo proprietário, ele encomendaria ou mesmo faria pessoalmente ajustes de modo que eu me adequasse ao seu corpo de acordo com seu intuito. O homem, então, ainda gozava de seu arbítrio desvinculado do fantasma do corpo esteticamente apresentável. Aos poucos, nós, objetos inanimados fomos conquistando cada vez mais espaço.
Nos dias de hoje o processo se inverteu. A raça humana está submetida à força daquilo que deseja obter. Se hoje você me desejar e eu não me adequar ao seu corpo, quem deverá passar pelo processo de ajuste é você. Caso eu lhe aperte, será você quem tem que perder peso. Caso eu fique larga, é você quem tem que desenvolver sua musculatura, ou colocar próteses. E, apática, você seguirá minhas ordens, pois nem mesmo consciência tomou da situação.
Num sobressalto, Paula acordou. Estava suando e ofegante. Por um breve instante lembrou de sua avó que lhe dizia, quando criança, que sempre desse atenção aos seus sonhos, pois poderiam ser importantes. Um pouco depois pegou no sono novamente.
Pela manhã, sono recobrado, sonho esquecido, Paula se levanta. Durante o café lembra-se da calça que vira na vitrine no dia anterior. Resolve que vai comprá-la, mas antes precisa dar um jeito naquela barriga. Qual era mesmo o telefone daquele cirurgião plástico...?
(inspirado pelo livro "O Corpo: Filosofia e Educação", de Paulo Ghiraldelli)
8/6/08
8/6/08
quarta-feira, 11 de junho de 2008
O OLHO E CORPO

Era uma vez um Olho. Era uma vez um Corpo.
Eram aparentemente como nós os conhecemos, como um Olho e um Corpo devem ser. Porém eles tinham algo novo. Tinha uma coisinha lá no fundo que os tornavam diferentes.
Aquele Olho não gostava de olhar. Sim, isso mesmo! Ele simplesmente estava desinteressado em ver as coisas. Ora, ainda que pareça estranho, não é difícil de entender o porque. Aquele Olho simplesmente estava exaurido, cansado, desinteressado em olhar o mundo e as pessoas. De uns tempos para cá vinha percebendo que trabalhava demais! Tudo ao seu redor era feito para sua apreciação. Ele tinha de ver as horas; ver TV; ver e-mails; ver esportes; ver pessoas que chamavam cada vez mais atenção; olhar para todos os lados no trânsito para não ser assaltado; ver jogos de videogame, ver outdoors e revistas nas bancas; ver tudo. Não achava justo que o mundo estivesse caminhando assim, para um espetáculo constante. O certo seria que também tivessem direito o nariz para cheirar e intuir as coisas, ou os ouvidos para estudar escutar o que é dito e o que não é. Enfim, de tanto olhar, perdeu o interesse e ficou apático. Não se encantava com mais nada.
Mas e o Corpo? Esse também tinha sua questão particular. Apesar de saber que era o maior instrumento de comunicação já desenvolvido, ele não gostava de ser visto. Diferente de todos os outros que buscavam aparecer cada vez mais, ele, se pudesse, sumiria. Não era um Corpo feio nem desengonçado, apenas não entendia os corpos que buscavam artifícios, formas, símbolos e marcas que os deixassem cada vez mais aparentes para se identificarem entre si. Aquele Corpo nutria uma insatisfação em ter que se adaptar e para isso fazia de tudo para se esconder, quase que se encolhendo para dentro de si.
E não é que um dia aquele Olho e aquele Corpo se encontraram? Foi um momento mágico. O Olho, que há muito não via nada de fato, não conseguiu passar indiferente por aquele Corpo, que por mais escondido que estivesse, mostrava ainda seus traços mais profundos. Era um Corpo humano, lindo na sua individualidade e autenticidade. Tamanha foi a emoção que o Olho não se conteve e pôs-se a chorar.
O Corpo percebeu tudo aquilo e também sentiu algo mudar dentro de si. Já tivera recebido outros olhares, mas nenhum como aquele que parecia emanar calor e acolhimento em sua direção. A resposta foi intuitiva. O Corpo se abriu como um casulo que guarda uma linda borboleta. Jogou-se de peito aberto para ser visto por aquele Olho que o desvendara.
E foram felizes enquanto viveram. Fim.
6/6/2008
quarta-feira, 2 de abril de 2008
DANÇA CONSIGO
Resolveu naquele dia que estava acabado. Seu corpo não mais suportaria continuar, afinal já se entregava àquela rotina há alguns longos anos.
Profissional da dança, bailarino, não importa que nome dessem à ocupação ele já a executava desde muito jovem. Muito jovem, aliás, foi quando realizou seu primeiro teste para ingressar em uma renomada escola de ballet e na qual foi aceito com louvor. Desde criança já demonstrava grande interesse pela dança e, dizia a mãe, já dava suas piruetas dentro da barriga.
Uma vez aceito na escola, começou a ensaiar muito e desfrutou da a companhia e da experiência adquirida de grandes mestres e amigos dançarinos. Rodou o mundo, conheceu lugares que poucos teriam a oportunidade de conhecer uma só vida. Quando achou que sua escola havia se tornado pequena para suas pretensões, começou a fazer experimentações. Ingressou em equipes de dança contemporânea, viajava em busca de novos rumos, encontrava-se com grandes bailarinos e dançarinos de diferentes tendências e escolas para dialogar experiências. Buscava sempre a renovação e o aperfeiçoamento de sua performance.
Aliás, se existia algo que nele se destacava era sua habilidade técnica nas performances. Era impecável. Parecia que seus movimentos precisos nunca falhavam ou demonstravam insegurança. Conseguira isso com uma rotina pesada de treinos e ensaios da qual ele jamais se desviou. Repetia mecanicamente seus exercícios a ponto de passar horas ensaiando um único movimento.
Curiosamente era ali, na segurança de suas repetições maquinadas que repousava também seu espinho mais dolorido. Nunca havia sentido prazer na dança após se profissionalizar. Sim, embora tivesse ocupado lugares que tantos bailarinos gostariam de ter ocupado, e embora tivesse vivenciado a dança em sua variedade de formas tão intensamente, não conseguia se lembrar de um só momento em que não tivesse sido mais que um dançarino profissional.
Aquele sentimento amargava em seu peito mais do que qualquer deslize em cima de um palco. Era irônico porém triste, pois se via infeliz na vida que levara até ali, e era por isso que resolvera parar. E parou. A mídia especulou, amigos ficaram preocupados e a família assustada. Como era possível que tal fenômeno desistisse do que sempre fora sua vida?
Passado algum tempo, caminhava ele por um parque ainda transtornado pelo que passara e inconformado com vazio que sentia em seu peito quando avistou uma criança, junto a um senhor mais velho. Eles observavam uma revoada de pássaros no céu, uma nuvem pontilhada que desenhava ondas e movimentos no ar como se lançados pelo vento em uma sinfonia harmônica da Natureza.
Aproximando-se ele pôde ouvir a conversa:
- Vô, que pássaros são aqueles?
- Acho que são andorinhas.
- Bonito. Parece até que estão dançando pra gente, não é?
- É, mas acho que eles não saberiam dizer se estão dançando. Acho que não se preocupam com isso. Só estão fazendo aquilo que é da sua natureza. O que sentem que deve ser feito.
Naquele exato momento o bailarino abriu suas asas e sua vida voltou a ser dança para sempre.
17 de Março de 2008.
Profissional da dança, bailarino, não importa que nome dessem à ocupação ele já a executava desde muito jovem. Muito jovem, aliás, foi quando realizou seu primeiro teste para ingressar em uma renomada escola de ballet e na qual foi aceito com louvor. Desde criança já demonstrava grande interesse pela dança e, dizia a mãe, já dava suas piruetas dentro da barriga.
Uma vez aceito na escola, começou a ensaiar muito e desfrutou da a companhia e da experiência adquirida de grandes mestres e amigos dançarinos. Rodou o mundo, conheceu lugares que poucos teriam a oportunidade de conhecer uma só vida. Quando achou que sua escola havia se tornado pequena para suas pretensões, começou a fazer experimentações. Ingressou em equipes de dança contemporânea, viajava em busca de novos rumos, encontrava-se com grandes bailarinos e dançarinos de diferentes tendências e escolas para dialogar experiências. Buscava sempre a renovação e o aperfeiçoamento de sua performance.
Aliás, se existia algo que nele se destacava era sua habilidade técnica nas performances. Era impecável. Parecia que seus movimentos precisos nunca falhavam ou demonstravam insegurança. Conseguira isso com uma rotina pesada de treinos e ensaios da qual ele jamais se desviou. Repetia mecanicamente seus exercícios a ponto de passar horas ensaiando um único movimento.
Curiosamente era ali, na segurança de suas repetições maquinadas que repousava também seu espinho mais dolorido. Nunca havia sentido prazer na dança após se profissionalizar. Sim, embora tivesse ocupado lugares que tantos bailarinos gostariam de ter ocupado, e embora tivesse vivenciado a dança em sua variedade de formas tão intensamente, não conseguia se lembrar de um só momento em que não tivesse sido mais que um dançarino profissional.
Aquele sentimento amargava em seu peito mais do que qualquer deslize em cima de um palco. Era irônico porém triste, pois se via infeliz na vida que levara até ali, e era por isso que resolvera parar. E parou. A mídia especulou, amigos ficaram preocupados e a família assustada. Como era possível que tal fenômeno desistisse do que sempre fora sua vida?
Passado algum tempo, caminhava ele por um parque ainda transtornado pelo que passara e inconformado com vazio que sentia em seu peito quando avistou uma criança, junto a um senhor mais velho. Eles observavam uma revoada de pássaros no céu, uma nuvem pontilhada que desenhava ondas e movimentos no ar como se lançados pelo vento em uma sinfonia harmônica da Natureza.
Aproximando-se ele pôde ouvir a conversa:
- Vô, que pássaros são aqueles?
- Acho que são andorinhas.
- Bonito. Parece até que estão dançando pra gente, não é?
- É, mas acho que eles não saberiam dizer se estão dançando. Acho que não se preocupam com isso. Só estão fazendo aquilo que é da sua natureza. O que sentem que deve ser feito.
Naquele exato momento o bailarino abriu suas asas e sua vida voltou a ser dança para sempre.
17 de Março de 2008.
segunda-feira, 17 de março de 2008
CONFÚCIO
“De igual modo, deveríamos, ao escutar uma frase, ao observar um gesto, penetrar o caráter de uma pessoa. Os sons – palavra, poesia, música – representam a expressão de um movimento do coração e do espírito, de uma emoção provocada por uma causa exterior. Esta causa está ligada à emoção, que, por sua vez, rege a expressão. E o todo forma uma cadeia cujos elos não se interrompem. Pela expressão, dever-se-ia chegar primeiro à emoção e depois à sua causa. E como nossa natureza é formada por nossas aptidões para sentir certas emoções e não outras, e como as emoções habituais forjam nosso corpo, conhecer a emoção de um homem significa conhecer o próprio homem”.
Analectos - Confúcio
Analectos - Confúcio
sábado, 1 de março de 2008
BRINCADEIRA DE CRIANÇA

Os dois se conheciam desde crianças. Nasceram no mesmo bairro com poucas semanas de diferença, e a história de um se confunde com a do outro.
Fernando e Lúcio eram os nomes do dois amigos. Tinham uma origem muito semelhante, eram oriundos de famílias bem estruturadas da então chamada classe média da população do interior de São Paulo. Iam à escola, brincavam, e faziam tudo que as crianças faziam. Mas uma coisa os diferenciava, que é o motivo desta história.
Garoto decidido, Lúcio resolveu aos dez anos de idade que seria atleta profissional em um esporte pelo qual ele se apaixonara quando o pai o levou num campeonato certa vez. Ele queria ser um judoca. A partir desse dia ele respirava Judô. Entrou para uma academia no bairro e começou a treinar três vezes por semana.
Seu amigo Fernando, por sua vez, seguiu um caminho diferente. Como sempre fora desde pequeno, queria fazer de tudo um pouco e parecia que nunca estava satisfeito. Cansava-se da mesma brincadeira por muito tempo e queria sempre conhecer coisas novas. Chegou até a tentar, influenciado pelo amigo, o tal do Judô, mas após três meses já não agüentava mais a rotina de treinos e exercícios repetitivos.
Não muito tempo depois Lúcio aumentou seu ritmo de treino e agora ia para a academia todos os dias obstinadamente. Estava começando a se destacar entre os alunos da academia e o professor atento começou a estimulá-lo a competir. Logo no primeiro campeonato o menino já ganhou o primeiro lugar. Era um fenômeno.
Nesse meio tempo, Fernando continuou com suas experimentações. Jogava futebol; andava de patins e skate na praça da cidade; praticou outras artes marciais; jogou capoeira; entrou em um time de basquete; fez aula de circo e ginástica artística; e ainda de quebra arriscava-se no street dance com alguns amigos no colégio.
E o tempo foi passando. Anos após ano, cada um seguiu seu rumo e acabaram por se afastar do convívio, pois o dia-a-dia dos dois era muito diferente. Lúcio já era um atleta profissional e vivia do e para o Esporte, enquanto Fernando não se cansava de fazer coisas novas a todo o momento.
Certo dia, já adulto e morando com a família em outra cidade, Fernando ficou sabendo que o amigo de infância iria participar da final dos Jogos Olímpicos, coisa que sempre fora seu sonho como atleta. Ligou a TV e acompanhou a luta vibrando junto com a esposa a cada golpe e ponto marcado. Ao final, com a vitória de Lúcio, ele chorou junto com o amigo à distância, emocionado e orgulhoso.
Naquela noite, deitado em sua cama, Fernando pensava nos caminhos diferentes que a vida pode tomar. Sentia-se orgulhoso pelo amigo, mas não podia conter-se de uma certa dose de inveja. Perguntava a si mesmo se, acaso tivesse insistido no Judô, poderia ter tido uma carreira tão brilhante quanto a de Lúcio e se tornado uma pessoa tão bem-sucedida quanto ele. Nunca revelara a ninguém, mas sentia-se um pouco infeliz por saber que tinha uma rica experiência por ter vivenciado tantas coisas diferentes na vida, mas nunca havia de fato obtido a excelência em nada. Não poderia dizer a seus filhos que tinha sido realmente bom em alguma coisa.
Algumas semana depois Fernando recebeu uma entrega em sua casa. Intrigado, abriu o pacote e surpreendeu-se com o que estava dentro. Ali estava uma medalha de ouro, aquela mesma que ele havia visto pouco tempo atrás no peito de Lúcio. Junto dela uma carta escrita à mão dizia:
“Querido Fernando,
Há quanto tempo não nos falamos não é mesmo? Espero que esteja tudo bem com você.
Pois é amigo, consegui o que queria. Sou campeão olímpico! Mas queria com carinho lhe oferecer meu prêmio. Pode lhe parecer estranho, mas você me inspirou muito para chegar aonde cheguei.
Sempre admirei a sua facilidade em experimentar coisas novas e sua capacidade física, emocional e intelectual de ser tão versátil, coisa que eu nunca conseguiria. Acho que me especializei no Judô para que eu pudesse de alguma forma sentir o que você sente pelo corpo, que é a felicidade em nos expressarmos honesta e integralmente da forma que melhor nos couber. Você com todas as suas vivências vislumbrava a todo dia a magia de se movimentar como um ato que une sentimentos, idéias e sensações, coisa que nosso antigo Sensei tanto tentava nos ensinar. Eu tive que percorrer um outro caminho para compreender isto.
Aceita de bom grado. A medalha é sua de coração.”
Dezembro de 2007.
Fernando e Lúcio eram os nomes do dois amigos. Tinham uma origem muito semelhante, eram oriundos de famílias bem estruturadas da então chamada classe média da população do interior de São Paulo. Iam à escola, brincavam, e faziam tudo que as crianças faziam. Mas uma coisa os diferenciava, que é o motivo desta história.
Garoto decidido, Lúcio resolveu aos dez anos de idade que seria atleta profissional em um esporte pelo qual ele se apaixonara quando o pai o levou num campeonato certa vez. Ele queria ser um judoca. A partir desse dia ele respirava Judô. Entrou para uma academia no bairro e começou a treinar três vezes por semana.
Seu amigo Fernando, por sua vez, seguiu um caminho diferente. Como sempre fora desde pequeno, queria fazer de tudo um pouco e parecia que nunca estava satisfeito. Cansava-se da mesma brincadeira por muito tempo e queria sempre conhecer coisas novas. Chegou até a tentar, influenciado pelo amigo, o tal do Judô, mas após três meses já não agüentava mais a rotina de treinos e exercícios repetitivos.
Não muito tempo depois Lúcio aumentou seu ritmo de treino e agora ia para a academia todos os dias obstinadamente. Estava começando a se destacar entre os alunos da academia e o professor atento começou a estimulá-lo a competir. Logo no primeiro campeonato o menino já ganhou o primeiro lugar. Era um fenômeno.
Nesse meio tempo, Fernando continuou com suas experimentações. Jogava futebol; andava de patins e skate na praça da cidade; praticou outras artes marciais; jogou capoeira; entrou em um time de basquete; fez aula de circo e ginástica artística; e ainda de quebra arriscava-se no street dance com alguns amigos no colégio.
E o tempo foi passando. Anos após ano, cada um seguiu seu rumo e acabaram por se afastar do convívio, pois o dia-a-dia dos dois era muito diferente. Lúcio já era um atleta profissional e vivia do e para o Esporte, enquanto Fernando não se cansava de fazer coisas novas a todo o momento.
Certo dia, já adulto e morando com a família em outra cidade, Fernando ficou sabendo que o amigo de infância iria participar da final dos Jogos Olímpicos, coisa que sempre fora seu sonho como atleta. Ligou a TV e acompanhou a luta vibrando junto com a esposa a cada golpe e ponto marcado. Ao final, com a vitória de Lúcio, ele chorou junto com o amigo à distância, emocionado e orgulhoso.
Naquela noite, deitado em sua cama, Fernando pensava nos caminhos diferentes que a vida pode tomar. Sentia-se orgulhoso pelo amigo, mas não podia conter-se de uma certa dose de inveja. Perguntava a si mesmo se, acaso tivesse insistido no Judô, poderia ter tido uma carreira tão brilhante quanto a de Lúcio e se tornado uma pessoa tão bem-sucedida quanto ele. Nunca revelara a ninguém, mas sentia-se um pouco infeliz por saber que tinha uma rica experiência por ter vivenciado tantas coisas diferentes na vida, mas nunca havia de fato obtido a excelência em nada. Não poderia dizer a seus filhos que tinha sido realmente bom em alguma coisa.
Algumas semana depois Fernando recebeu uma entrega em sua casa. Intrigado, abriu o pacote e surpreendeu-se com o que estava dentro. Ali estava uma medalha de ouro, aquela mesma que ele havia visto pouco tempo atrás no peito de Lúcio. Junto dela uma carta escrita à mão dizia:
“Querido Fernando,
Há quanto tempo não nos falamos não é mesmo? Espero que esteja tudo bem com você.
Pois é amigo, consegui o que queria. Sou campeão olímpico! Mas queria com carinho lhe oferecer meu prêmio. Pode lhe parecer estranho, mas você me inspirou muito para chegar aonde cheguei.
Sempre admirei a sua facilidade em experimentar coisas novas e sua capacidade física, emocional e intelectual de ser tão versátil, coisa que eu nunca conseguiria. Acho que me especializei no Judô para que eu pudesse de alguma forma sentir o que você sente pelo corpo, que é a felicidade em nos expressarmos honesta e integralmente da forma que melhor nos couber. Você com todas as suas vivências vislumbrava a todo dia a magia de se movimentar como um ato que une sentimentos, idéias e sensações, coisa que nosso antigo Sensei tanto tentava nos ensinar. Eu tive que percorrer um outro caminho para compreender isto.
Aceita de bom grado. A medalha é sua de coração.”
Dezembro de 2007.
domingo, 24 de fevereiro de 2008
COTIDIANO 2

Mal nasceu o dia e ela já está de pé, deixando o café pronto para o filho mais novo. É um longo caminho até o trabalho na região da Avenida Paulista e ela não quer se atrasar. Não quer e com certeza não pode pois, segundo seu patrão lhe falou, sua função é a mais importante. Precisa chegar cedo para deixar a academia limpa para os freqüentadores que chegam às seis da manhã.
No caminho ela já se sente cansada ao prever o serviço que a espera. Seria tão mais fácil se ao menos não sentisse aquela dor nas costas que a acompanha há anos. “Hérnia de disco....tem que se cuidar, Dona Ana...”, ela bem lembra as palavras do médico.
Chegando na academia começa a correria. Limpa os vestiários, os banheiros, os colchonetes, as salas, tira o pó dos aparelhos, tudo pronto para a primeira turma de executivos e donas-de-casa que vêm fazer seu exercício diário movidos pela culpa da boa-forma física.
Ana sabe toda a programação da semana. Além da limpeza, é responsável pelo cafezinho que serve aos professores em cada aula. Já viu todos os tipos de ginástica que alguém poderia imaginar em todos os seus anos de trabalho, inclusive algumas que só mudam de nome, mas tem aquela que é sua preferida. Aquela com a qual ela construiu seu sonho de vida.
Ela tem um grande desejo. Ser professora da aula de alongamento. Meu Deus! Que bom seria poder passar a aula inteira, quem sabe o dia inteiro fazendo aqueles exercícios! Quem sabe assim suas costas não reclamariam mais.
Seu Sérgio, o dono da academia, falou que iria deixar ela fazer as aulas num horário mais tranqüilo, com menos gente. Ela está esperando até hoje.
Mas seu dia continua. Limpa os aparelhos da musculação, enxuga o piso molhado da piscina, passa pano na montanha de colchonetes da aula de ginástica, cafezinho na recepção. Quando se dá conta já é hora de ir embora, as tarefas de casa a esperam.
No caminho segue pensando na vida, de pé no ônibus lotado com as costas ardendo de cansaço e dor. Fecha os olhos e lembra da aula de alongamento...
Quem sabe amanhã...
10 de Novembro de 2007.
No caminho ela já se sente cansada ao prever o serviço que a espera. Seria tão mais fácil se ao menos não sentisse aquela dor nas costas que a acompanha há anos. “Hérnia de disco....tem que se cuidar, Dona Ana...”, ela bem lembra as palavras do médico.
Chegando na academia começa a correria. Limpa os vestiários, os banheiros, os colchonetes, as salas, tira o pó dos aparelhos, tudo pronto para a primeira turma de executivos e donas-de-casa que vêm fazer seu exercício diário movidos pela culpa da boa-forma física.
Ana sabe toda a programação da semana. Além da limpeza, é responsável pelo cafezinho que serve aos professores em cada aula. Já viu todos os tipos de ginástica que alguém poderia imaginar em todos os seus anos de trabalho, inclusive algumas que só mudam de nome, mas tem aquela que é sua preferida. Aquela com a qual ela construiu seu sonho de vida.
Ela tem um grande desejo. Ser professora da aula de alongamento. Meu Deus! Que bom seria poder passar a aula inteira, quem sabe o dia inteiro fazendo aqueles exercícios! Quem sabe assim suas costas não reclamariam mais.
Seu Sérgio, o dono da academia, falou que iria deixar ela fazer as aulas num horário mais tranqüilo, com menos gente. Ela está esperando até hoje.
Mas seu dia continua. Limpa os aparelhos da musculação, enxuga o piso molhado da piscina, passa pano na montanha de colchonetes da aula de ginástica, cafezinho na recepção. Quando se dá conta já é hora de ir embora, as tarefas de casa a esperam.
No caminho segue pensando na vida, de pé no ônibus lotado com as costas ardendo de cansaço e dor. Fecha os olhos e lembra da aula de alongamento...
Quem sabe amanhã...
10 de Novembro de 2007.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Curto-Circuito

Segunda-feira. Paulo acorda como de costume às sete horas da manhã. Desliga o despertador; pula da cama; calça os chinelos e vai ao banheiro. Satisfaz suas necessidades; entra no banho e lava-se da cabeça aos pés, como sua avó lhe ensinou que era o certo. Pega a toalha e se enxuga dentro do box para não molhar o piso.
Após a barba feita, vai para a cozinha; liga a cafeteira; abre a despensa; prepara o desjejum; come apressado; volta ao banheiro e passa fio-dental antes de escovar os dentes; olha-se no espelho e confere o terno; sai atrasado.
Entra no carro; verifica a gasolina; liga o rádio naquela emissora que dá dicas sobre o trânsito. Faz o mesmo trajeto de sempre até o escritório, sem esquecer de um só pisca-alerta ao fazer as curvas; pára na vaga de costume para não ter que caminhar muito; cumprimenta o porteiro com um comentário sobre o jogo de futebol do dia anterior; toma o elevador; entra na sua sala; cumprimenta a secretária; senta em sua mesa e verifica as tarefas do dia organizadas nas linhas da agenda de hora em hora.
Ele organiza suas armas. A caneta do lado direito ao lado do bloco de anotações; o post-it ao lado do telefone; ajusta a altura da cadeira; inclina o teclado e a tela do computador; aproxima o descanso para os pés; aponta os lápis.
Seu dia prossegue sem nada de novo. É mais um dia de burocracia. Ele confere protocolos; estabelece prazos; cobra seus subordinados; assina alguns papéis; confere seus e-mails e a bolsa de valores; lê as manchetes de todos os jornais pela internet.
No final do dia, vazio e exausto, ele cruza com uma velha amiga de colégio que não encontrava há anos que se tornou professora de Yoga da academia do bairro.
- Paulo! Há quanto tempo! O que anda fazendo?
- Oi, Lu. Nada de mais, só trabalhando bastante.
- Ê, Paulo. Tem que se cuidar, você trabalha demais! Sempre foi um chato com essa sua vida organizada. Dá um tempinho pra você mesmo.
- Não sou chato!- responde ele um tanto indignado. E nem tão regrado quanto você diz, só gosto de ter controle das coisas.
- Ah, claro. Aposto que uma coisinha diferente no seu dia e você já não sabe mais o que fazer.
Paulo se despediu secamente e foi para casa. Aquelas palavras lhe trouxeram um incômodo maior do que deveriam. Sentiu-se com o orgulho ferido.
- Quem ela pensa que sou? Um robô? Uma marionete? – resmungava sozinho.
Resolveu que no dia seguinte acordaria e faria tudo de uma forma diferente, como se para provar a si mesmo que era possível. Mas teria que ser uma mudança simples para não estragar seu dia atarefado.
- Já sei! Vou fazer tudo com a mão esquerda!
Parecia bobagem, mas ele julgou que seria um bom começo e dormiu tranqüilo.
Terça-feira. Paulo está a quarenta e cinco minutos e trinta e dois segundos tentando desligar o despertador.
11 de Novembro de 2007.
Após a barba feita, vai para a cozinha; liga a cafeteira; abre a despensa; prepara o desjejum; come apressado; volta ao banheiro e passa fio-dental antes de escovar os dentes; olha-se no espelho e confere o terno; sai atrasado.
Entra no carro; verifica a gasolina; liga o rádio naquela emissora que dá dicas sobre o trânsito. Faz o mesmo trajeto de sempre até o escritório, sem esquecer de um só pisca-alerta ao fazer as curvas; pára na vaga de costume para não ter que caminhar muito; cumprimenta o porteiro com um comentário sobre o jogo de futebol do dia anterior; toma o elevador; entra na sua sala; cumprimenta a secretária; senta em sua mesa e verifica as tarefas do dia organizadas nas linhas da agenda de hora em hora.
Ele organiza suas armas. A caneta do lado direito ao lado do bloco de anotações; o post-it ao lado do telefone; ajusta a altura da cadeira; inclina o teclado e a tela do computador; aproxima o descanso para os pés; aponta os lápis.
Seu dia prossegue sem nada de novo. É mais um dia de burocracia. Ele confere protocolos; estabelece prazos; cobra seus subordinados; assina alguns papéis; confere seus e-mails e a bolsa de valores; lê as manchetes de todos os jornais pela internet.
No final do dia, vazio e exausto, ele cruza com uma velha amiga de colégio que não encontrava há anos que se tornou professora de Yoga da academia do bairro.
- Paulo! Há quanto tempo! O que anda fazendo?
- Oi, Lu. Nada de mais, só trabalhando bastante.
- Ê, Paulo. Tem que se cuidar, você trabalha demais! Sempre foi um chato com essa sua vida organizada. Dá um tempinho pra você mesmo.
- Não sou chato!- responde ele um tanto indignado. E nem tão regrado quanto você diz, só gosto de ter controle das coisas.
- Ah, claro. Aposto que uma coisinha diferente no seu dia e você já não sabe mais o que fazer.
Paulo se despediu secamente e foi para casa. Aquelas palavras lhe trouxeram um incômodo maior do que deveriam. Sentiu-se com o orgulho ferido.
- Quem ela pensa que sou? Um robô? Uma marionete? – resmungava sozinho.
Resolveu que no dia seguinte acordaria e faria tudo de uma forma diferente, como se para provar a si mesmo que era possível. Mas teria que ser uma mudança simples para não estragar seu dia atarefado.
- Já sei! Vou fazer tudo com a mão esquerda!
Parecia bobagem, mas ele julgou que seria um bom começo e dormiu tranqüilo.
Terça-feira. Paulo está a quarenta e cinco minutos e trinta e dois segundos tentando desligar o despertador.
11 de Novembro de 2007.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
COTIDIANO 1

Sol. Sua testa suada mostra as marcas do trabalho diário sob o calor fustigante da metrópole. O cheiro da fumaça dos escapamentos, o calor irradiado do concreto, as buzinas dos carros que passam a quase lhe tocar parecem tornar tudo num sonho em que ele se encontra não sabe desde quando.
Vez ou outra pára e retoma o fôlego, só para no mesmo instante ouvir um motorista o xingar na ultrapassagem. A carroça parece estar ficando mais pesada a cada dia que passa, mas não há muito tempo para lamentos, ele está bloqueando o trânsito e precisa prosseguir com seu serviço. Pendura-se na frente da carroça para liberar as rodas e suas pernas magras dão tração à montanha de papelão e outras bugigangas que são seu ganha-pão.
Difícil dizer quantas vezes executa esse movimento por dia. Ele sabe apenas que é para isso que serve agora seu corpo. É ele quem, como uma máquina, executa a tarefa de conduzir a carroça sem pestanejar.
Mais à frente ele diminui o ritmo. Seus olhos se voltam para um aglomerado de pessoas que parece entretido com algo. Sem abandonar a carroça ele se aproxima e só então consegue identificar o que se passava. Era um grupo de jovens, artistas de rua, que se apresentavam ao som de uma música num belíssimo número digno de aparecer na televisão.
Aquela visão foi como um choque em sua retina. Ele já havia, sim, presenciado outras apresentações de rua, mas aquela lhe trouxe um incômodo no fundo do peito o qual ele a princípio não conseguiu distinguir o motivo. Talvez fosse o calor insuportável daquele dia, a poluição que lhe queimava olhos e nariz, ou o estômago vazio já a algum tempo, mas o fato é que teve uma sensação difícil de descrever.
O grupo que se lindamente se apresentava com certeza não era qualquer um, possivelmente seriam profissionais ou até estrangeiros. Seus lindos gestos e ações, com total domínio da arte do movimento lhe causavam um misto de felicidade extrema e indignação, orgulho e vergonha, numa confusão de sentidos que ele só depois conseguiu compreender.
Algumas memórias lhe vieram à cabeça de quando era criança, em um lugar que já ficou para trás, no qual ele brincava com amigos no meio do mato, vivia cercado de animais, seu corpo em total sintonia com a natureza. E ele lembra das brincadeiras, das rodas, das danças, dos jogos de futebol, dos brinquedos, e da infinidade de coisas que ele se lembra tão bem porque aprendeu fazendo numa época em que aprendia com o corpo. Seu corpo era dele.
Há quanto tempo ele se esqueceu do que era aquilo? Ele provavelmente não conseguiria dizer. Não sabe mais distinguir as sensações daquelas experiências, pois seu corpo não mais lhe pertence. Tornara-se uma carcaça, um animal de tração desprovido de sentido além do de cumprir aquela função. A quem pertenceria seu corpo agora? Quem lhe tomara tal direito?
Dali surgia sua indignação. Por quais motivos o destino lhe reservara tal vida? Que forças o impediam de conseguir superar aquelas condições?
Sentiu-se atordoado. Suas idéias vinham e voltavam deixando sua cabeça confusa já sem paciência. Desistiu de buscar as respostas, pois julgou que não lhe cabia tal poder. Restava apenas seguir adiante.
Curvou-se à frente, a cabeça apontando o caminho, arqueou as costas e puxou....
Vez ou outra pára e retoma o fôlego, só para no mesmo instante ouvir um motorista o xingar na ultrapassagem. A carroça parece estar ficando mais pesada a cada dia que passa, mas não há muito tempo para lamentos, ele está bloqueando o trânsito e precisa prosseguir com seu serviço. Pendura-se na frente da carroça para liberar as rodas e suas pernas magras dão tração à montanha de papelão e outras bugigangas que são seu ganha-pão.
Difícil dizer quantas vezes executa esse movimento por dia. Ele sabe apenas que é para isso que serve agora seu corpo. É ele quem, como uma máquina, executa a tarefa de conduzir a carroça sem pestanejar.
Mais à frente ele diminui o ritmo. Seus olhos se voltam para um aglomerado de pessoas que parece entretido com algo. Sem abandonar a carroça ele se aproxima e só então consegue identificar o que se passava. Era um grupo de jovens, artistas de rua, que se apresentavam ao som de uma música num belíssimo número digno de aparecer na televisão.
Aquela visão foi como um choque em sua retina. Ele já havia, sim, presenciado outras apresentações de rua, mas aquela lhe trouxe um incômodo no fundo do peito o qual ele a princípio não conseguiu distinguir o motivo. Talvez fosse o calor insuportável daquele dia, a poluição que lhe queimava olhos e nariz, ou o estômago vazio já a algum tempo, mas o fato é que teve uma sensação difícil de descrever.
O grupo que se lindamente se apresentava com certeza não era qualquer um, possivelmente seriam profissionais ou até estrangeiros. Seus lindos gestos e ações, com total domínio da arte do movimento lhe causavam um misto de felicidade extrema e indignação, orgulho e vergonha, numa confusão de sentidos que ele só depois conseguiu compreender.
Algumas memórias lhe vieram à cabeça de quando era criança, em um lugar que já ficou para trás, no qual ele brincava com amigos no meio do mato, vivia cercado de animais, seu corpo em total sintonia com a natureza. E ele lembra das brincadeiras, das rodas, das danças, dos jogos de futebol, dos brinquedos, e da infinidade de coisas que ele se lembra tão bem porque aprendeu fazendo numa época em que aprendia com o corpo. Seu corpo era dele.
Há quanto tempo ele se esqueceu do que era aquilo? Ele provavelmente não conseguiria dizer. Não sabe mais distinguir as sensações daquelas experiências, pois seu corpo não mais lhe pertence. Tornara-se uma carcaça, um animal de tração desprovido de sentido além do de cumprir aquela função. A quem pertenceria seu corpo agora? Quem lhe tomara tal direito?
Dali surgia sua indignação. Por quais motivos o destino lhe reservara tal vida? Que forças o impediam de conseguir superar aquelas condições?
Sentiu-se atordoado. Suas idéias vinham e voltavam deixando sua cabeça confusa já sem paciência. Desistiu de buscar as respostas, pois julgou que não lhe cabia tal poder. Restava apenas seguir adiante.
Curvou-se à frente, a cabeça apontando o caminho, arqueou as costas e puxou....
10 de Novembro de 2007
TODO
todo
1 Integral, inteiro (seguido de artigo ou após o substantivo): Trabalhava todo o dia e descansava a noite toda. 2 Cada, qualquer: É todo dia a mesma coisa. Toda noite vai ao cinema. Todos os homens são mortais. Emprega-se também expletivamente: Viu submergir todas as suas esperanças. adv Completamente, de todo, inteiramente (variando excepcionalmente em gênero e número): O copo ficou todo quebrado, e a toalha toda encharcada. sm 1 Agregado de partes que formam um conjunto, um corpo completo: Um todo harmonioso. 2 Aspecto geral; generalidade: "Cada homem (microcosmo de loucura) imagina-se um todo" (Castilho). 3 O aspecto físico, tomado no seu conjunto: O todo da obra não está ruim. sm pl Todo o mundo, toda a gente: Todos aplaudiram o candidato. De todo: V de todo em todo. De todo em todo: completamente. Estar em todas: participar ativamente da vida social, estar bem informado. Todo o mundo: todo e qualquer homem. Pl: todos (ô). Fem: toda (ô); pl do fem: todas (ô).
1 Integral, inteiro (seguido de artigo ou após o substantivo): Trabalhava todo o dia e descansava a noite toda. 2 Cada, qualquer: É todo dia a mesma coisa. Toda noite vai ao cinema. Todos os homens são mortais. Emprega-se também expletivamente: Viu submergir todas as suas esperanças. adv Completamente, de todo, inteiramente (variando excepcionalmente em gênero e número): O copo ficou todo quebrado, e a toalha toda encharcada. sm 1 Agregado de partes que formam um conjunto, um corpo completo: Um todo harmonioso. 2 Aspecto geral; generalidade: "Cada homem (microcosmo de loucura) imagina-se um todo" (Castilho). 3 O aspecto físico, tomado no seu conjunto: O todo da obra não está ruim. sm pl Todo o mundo, toda a gente: Todos aplaudiram o candidato. De todo: V de todo em todo. De todo em todo: completamente. Estar em todas: participar ativamente da vida social, estar bem informado. Todo o mundo: todo e qualquer homem. Pl: todos (ô). Fem: toda (ô); pl do fem: todas (ô).
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